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quarta-feira, 20 de julho de 2011

Coração de Leão

Nos últimos dias de vida de Maria da Escócia foi anunciada a visita da Rainha Regente Isabel Primeira. Naqueles últimos dias frios, pois a execução se deu no início do outono, os ossos de Maria rangiam alto conforme se movia pelo quarto pequeno. Foi esse som que deu boas vindas à Rainha. Isabel por sua vez tinha os ossos fortes, herança não se sabe de onde, porque o frio haveria de tê-los deteriorado com o passar dos anos. Quando Isabel parou em frente a Maria, tantas coisas passaram por sua cabeça; com o passar dos anos seus ossos ficavam mais firmes e sua mente, mais acostumada ao fluxo intenso de pensamentos. Décadas atrás seu pai havia parado em frente a sua mãe, exatamente como ela agora encarava os olhos azuis de Maria. A vida, tornou a formular Isabel em sua cabeça, a vida é mesmo um fluxo interminável de ironias. Maria começou a falar sobre sua vida; como não haveria de pedir perdão por seus atos. E Isabel silenciou-a com um dedo. Era tão óbvio nos olhos de Maria que ela não compreendia coisa alguma, que tinha o coração e a mente em mundos opostos, que pouco sabia das coisas que Isabel sabia — mas também estava óbvio nos olhos de Isabel que Maria era mulher de melhor sorte e, ainda que falhasse como rainha, era por terem nascido em épocas erradas. Isabel encostou o dedo no lábio de Maria e disse baixinho que sua vida era uma seqüência interminável de boas pessoas enviadas por Deus nos piores momentos, e que seu fardo era vê-las todas indo embora, indo embora às vezes por seus próprios meios. Doía-lhe matar outra rainha, rainha como ela, que havia passado por tudo que ela também havia vivido, ainda que com casamento; talvez por isso mesmo tão rainha quanto ela, que fugira do matrimônio mas enfrentara o país e os anos. No entanto... a coroa era sua. Então Maria se ergueu e tornou a se abaixar, ajoelhada com a cabeça sobre as pernas de Isabel, e as duas entrelaçaram os dedos, e as duas sabiam que naquele dia Isabel escreveria Elizabeth Regina na sentença de morte de Maria, e que cortariam o pescoço de Maria e Isabel guardaria sua cruz de ouro como lembrança. Mas, durante longos minutos, o que lhes importava era apenas que suas mãos estavam dadas e que o fim, ainda que tardiamente, estava próximo. O fim, que era o começo.



Mais tarde naquele dia, Isabel sentiu-se irremediável e terrivelmente sozinha.

domingo, 20 de março de 2011

Don't You

Isabel querida,
Acho hoje de péssimo gosto a inscrição que James nos dedicou. Não apenas por nossas religiões, que não permitem a idéia de uma ressurreição; aprendi, como creio que a esta altura o seu corpo que apodrece ao meu lado também tenha aprendido, que não há nenhuma dessas coisas, nem deus, nem nada. A gente tem tanto tempo pra pensar quando se está morta — você há de ver, Isabel querida —, e depois de quase quarenta e cinco anos morta eu fiz a mesma reflexão que seu sucessor fez ao inscrever no nosso túmulo: aqui descansam duas irmãs, Maria e Isabel, na esperança de uma ressurreição. Isabel, nós somos a história repetida uma da outra, a história repetida das nossas mães, e se nos uníssemos cometeríamos os mesmos erros, pois é o que fizemos durante todo esse tempo — eu enquanto via aquelas mulheres horrorosas, com o devido respeito à Senhora Anne e uma exceção feita a Katherine Parr, sucederem minha mãe, eu enquanto esperava pela morte de Eduardo, eu enquanto aguardava com paciência a execução da rainha fajuta que tomou o seu lugar, eu naqueles anos, naquelas mortes todas — eu assinando cada morte, eu sorrindo para aquela alcunha irônica, Maria Sangrenta, Maria Sangrenta, Maria Sangrenta — eu perdendo filhos que nem existiam de verdade, eu me enganando com uma gravidez que nada mais era que um enorme câncer corroendo meu corpo como o que corroeu o de minha mãe. Eu perdendo para você, Isabel. Você, que morreu invicta. Entende o péssimo gosto? A ironia cruel? Nós não precisamos nos unir, Isabel meu bem, Isabel minha querida, ruiva e brilhante irmã, porque nós fomos as mesmas desde o início dos tempos. Se eu tivesse tido alguns anos. Uns poucos, Isabel, poucos anos, o suficiente para ter um filho, para arranjar uma maneira de burlar o testamento de Henrique que apontava você como a última na linha de sucessão, Isabel, as coisas teriam sido diferentes — e depois, ah, depois elas teriam sido iguais, porque assim haveria de ser, Isabel. Nós haveríamos de morrer a mesma pessoa.




Com amor e um voto genuíno de boas vindas,
Maria Primeira da Inglaterra

I'll put us back together at heart, babe

Tainted Love

Maria querida,
Acho que quando se é rainha nunca se pode de fato insultar qualquer pessoa, apenas ser violentamente perseguida, e por isso sinto que se há um destinatário capaz de compreender meus sentimentos esse destinatário é você. Hoje, Maria querida, eu penso em nós duas com amargura. Nossas histórias são tão parecidas que deveríamos ter nos unido como as irmãs que de certa maneira somos. Ambas sabemos, e espero que você me perdoe como eu a perdôo, que no entanto isso jamais seria possível, pois a própria semelhança nas histórias talvez seja responsável pela fome que carregávamos.
Não sei se alguma vez você de fato observou a Torre de Londres. Conta-se que, na primeira vez em que entrei lá, fui tomada por um pânico sobrenatural, dado o destino de minha mãe lá mesmo. Não é inteiramente mentira, nem portanto inteiramente verdade. Quando entrei na Torre de Londres eu acreditei que nunca mais ia sair de lá, e acreditei com tanta força que para mim era como se fosse fato consumado, entrei pronta para ficar até a morte. Digo isso porque naquele dia descobri que todos os meus instintos viriam sempre a dar errado, e por isso construí um reinado que, veja a coincidência, foi mais longo que a sua vida inteira.
Quando nos vimos, Maria, eu tive o instinto certeiro, a noção imediata, de que nos tornaríamos companheiras. Que a traição que nosso pai nos fez — podemos eternamente discordar quanto a melhor rainha da geração anterior, mas conto com a sua crença de que um filho dos Seymour não é digno do trono — nos teria moldado para uma amizade que perduraria. Que nos tornaríamos ambas rainhas juntas, que sentaríamos nas duas cadeiras de rei, que carregaríamos coroas e decisões na mesma época; que a era de uma não haveria de suceder a era da outra. O que eu ainda não sabia é que nosso pai nos despertaria tanto ódio. Mas não quero terminar esta carta com amargura. Fala-se muito de ódio e raiva entre as mulheres e não pense que sou suficientemente ingênua para crer que não é verdade que somos mais inclinadas a esses sentimentos do que os homens; não quero discuti-los com você, no entanto, porque em vida sentimos o suficiente, e porque não quero basear o meu amor pela sua memória em nada que nos assemelhe uma à outra. Maria querida, em outra época teríamos sido mais do que irmãs; em outra época teríamos sido consortes. Construí sozinha uma era de ouro. Pergunto-me agora no leito de morte, tantas eras depois do seu, como seria uma era reinada por nós duas.



 Com amor,
Rainha Isabel Primeira da Inglaterra


Oh baby baby, where did our love go?

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Average


Não é especialmente bonita, o cabelo é da mesma cor da pele, corte pouco ousado que não valoriza as linhas comuns do rosto; nem muito magra, nem gostosa. Não chama atenção. Média. Gosta de vestir tons pastéis e tons de terra. Filha de um sujeito rico, dono de alguma coisa, tem uns irmãos bem mais legais e descolados que ela. Estudou em bons colégios, tirou sempre boas notas. Até o momento não deu mostras de talento. Gosta de História da Arte, sonhou em ser princesa quando criança e tinha fotos do Príncipe William na parede do quarto quando quase adolescente. Dizem que seu romance floresceu em uns momentos a sós na casa de Balmoral, uma agradável locação que Camila conheceu melhor que Diana. (O chão desses pequenos castelos é manchado de sangue e de porra, espero que ela saiba. Essas garotas são esperta, ela deve saber.) O emprego de meio período na empresa do pai não lhe pareceu muito realizador, mas sabemos que nem mesmo uma princesa pode ficar sem trabalhar hoje em dia sem ser criticada. (Todo mundo está vigiando a gente o tempo todo, não importa quantos acordos a gente tente fazer com a impresa. Os olhos deles estão sempre espiando quando a gente passa). Comprou uma câmera fotográfica bem cara, conheceu Mário Testino e acha que é fotógrafa. Bem-vinda, Lady Kate Middleton. Sente, cruze as pernas como uma moça e tente impressionar. Os tapetes onde você perdeu a virgindade parecem ser de bom agouro e tudo mais, mas é bom manter em mente que esse anel de safiras no seu dedo custou uma cabeça de rainha. Uma rainha das grandes. Bem-vinda e muito boa sorte.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Where is our Queen? Where is her flag?

 
É decididamente irônico, concluiu a princesa, se soerguendo do carro em chamas, que eu tenha tentado morrer duas vezes e só tenha conseguido quando não fazia mais questão. O asfalto estava quente, ou estaria, se ela estivesse viva e sua pele ainda pudesse absorver qualquer coisa. Ela também teria suspirado se pudesse suspirar. A ironia em vida tem um gosto gelado e seco; é como engolir vidro, se você pudesse engolir vidro. A ironia em morte é parecida, mas tudo na morte vem acompanhado de uma inenarrável e inexplicável paz. É como engolir vidro, mas não parece tão ruim. A princesa equilibrou-se nos pés mortos e examinou a si mesma no chão, as pernas quebradas e retorcidas e cicatrizes novas pelo corpo. Não tardou a sentir novamente os flashes das câmeras. A perseguição em vida tem um gosto adstringente e enjoativo; é como engolir comida estragada, mas precisar engoli-la. A perseguição em morte tem gosto de raiva, mas a princesa de Gales sente tanta raiva, em vida e em morte, que a raiva tem gosto de tédio, de um rolar de olhos impaciente, de preguiça de deparar-se com o próprio rosto em mais jornais e revistas do que sua memória pode registrar. Durante a morte, a princesa não pensou no ex-marido. Charles ocupava seus pensamentos e seu sangue havia tempo demais; mas agora ela sequer podia se surpreender por não conseguir lembrar-se de sua existência. A princesa caminhou etérea sobre o próprio corpo, o corpo do namorado e o do motorista mortos, subiu nos restos do carro e viu-se novamente fotografada, dez cliques por segundo, quinze cliques por segundo, até que seus olhos mortos doessem. Seu corpo foi dilacerado vezes demais; quando viveu com Charles, quando tentou morrer, quando o carro bateu, quando seus ossos todos se partiram, quando as câmeras captaram a luz de sua morte e não conseguiram visualizá-la serena, fantasmagórica, raivosa e entediada sobre a última imagem que o mundo veria dela. A morte não tem gosto, e a Princesa Diana de Gales deixou-se sumir da existência com uma primeira e última satisfação.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Nevermind the Bollocks!










quinta-feira, 23 de setembro de 2010

The King's Beloved Sister

Eu não sou rainha porque sou feia. O motivo é esse. Eu sou feia. Não é que rainhas não possam ser feias, é que eu, que sou feia, não posso ser rainha. Posso ser a irmã do duque. Se eu tivesse nascido princesa, acabaria sendo rainha. Uma rainha feia. Que diferença faz? Mas quando se nasce príncipe a gente quer casar com as moças bonitas. Eu não o culpo. Não é culpa dele. É culpa minha ser feia, mas tudo bem. Tudo bem mesmo. Como irmã do duque, todos me achavam bonita. Eu gostaria de não viver entre os extremos. Como irmã do duque, eu era muito bonita e portanto não podia ou precisava de cérebro. Eu ainda não preciso. Ninguém me cobrava cérebro. Eu era bonita. Uma bela irmã-de-duque sem cérebro. Eu era bonita para os germânicos, penso. Sim, os germânicos vêem tudo diferente dos outros. Para eles eu era bonita, e para eles eu era estúpida. Para os ingleses eu também era estúpida. Desse estigma nunca me livrei. Estúpida. O problema é que eu podia ser estúpida em território germânico, pois era bonita para o Sol que nascia para nós; mas, na Inglaterra, como, além de feia, ser estúpida? Não quero falar de justiça. Também não quero falar de culpa. Eu não quero falar de nada; sou estúpida; e não sou rainha unicamente porque Henrique não me julgou suficientemente bonita. Tudo bem. Henrique foi um amante carinhoso. Agora acho que já posso ser sincera. Oras, é claro que o casamento foi consumado. Eu posso não ser bela, e posso não ser inteligente, e posso não atrair todos os olhares como a outra Anna atraía, mas por que Henrique não consumaria nosso casamento? Henrique era muito gentil. Eu não queria mesmo ser rainha. Eu vou admitir que o que me manteve viva e na Inglaterra por tantos anos foi uma fúria sem precedentes. Eu merecia mais. Eu acho que não dá para colocar uma coroa na cabeça sem criar um pouco de raiva. Eu não sei de onde surgiu, mas sei que assumi meu posto como a mais amada mulher do rei com uma dor que feria, não uma dor de quem lamenta, mas de quem quer fazer lamentar. Eu esperei com paciência e ódio. Eu posso não ser bonita; não sou bonita. Mas cerzi uma bonita tapeçaria sobre meus seis meses de rainha. Eu nunca tinha sido tomada por algum sentimento antes. Quero deixar claro que nunca me senti rejeitada. Eu acho que sou orgulhosa demais para me sentir rejeitada. Eu não sou rainha porque sou feia. Eu vivi todos esses anos porque não fui rainha. Todos os dias da minha vida, ajeito a tapeçaria. Mesmo que eu espere até meu último dia, nunca serei rainha. Eu não culpo ninguém. Acho que nunca realmente quis ser rainha.

Anna de Cleves, a Amada Irmã do Rei

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Cinco de Novembro ou Bizarre Love Triangle

I see no reason
Why the Gunpowder Treason
Should ever be forgot
Tu sobe e desce cada vez mais rápido nesse homem e ele arranha as tuas costas. É uma cena que eu vejo todos os dias. Tu és uma piada, Isabel. Tu és uma piada e eu te amo tanto que me frustra. Tu te viras e agora o homem está em cima de ti e ele se movimenta com força, dá para ver que gostas pelo jeito que gemes. É vergonhoso, Isabel. Se eu não fosse uma massa de terra dividida em pequenos territórios, descansaria a cabeça numa das mãos. Mas eu sou uma massa de terra dividida em pequenos territórios e tu juraste amar apenas a mim! Não que eu seja ingênua e ache que tu estás amando este homem, embora sem dúvida sinta algum prazer. Ah, Isabel, eu não sei por que mentes para o povo. Eu sou mais velha do que tu e entendo melhor esta terra, até porque eu sou esta terra. Essa gente não se convence fácil assim. Quer tu prometas amor eterno a mim e apenas a mim, quer tu prometas amor aos raios que a partam, eles vão achar tudo muito ruim. Tua mãe morreu por menos que isso, tu sabes. Eu queria que tu me amasses mais. Tu passas tempo demais com esses homens. E com essas mulheres. É duro, tu não imaginas. Tu te sentas no trono com a tua coroa, ela ficava melhor na tua mãe aliás, e juras amor a mim, e fazes o teu trabalho, mas e eu, Isabel? Eu não posso lidar com isso. Tu só me amas aos olhos do público. É difícil. Essa coisa de rainha virgem porque casou com a Inglaterra. O nosso casamento muito me frustra, muito me decepciona. Eu há muito deixei de ter orgulho, Isabel. Eu me humilho na tua frente e eu nunca me humilhei ou subordinei a ninguém antes. Tu não responde aos meus terremotos, à minha frieza, e também não responde aos tempos de Sol, nem às colheitas fartas. Tudo isso sou eu, Isabel. Eu pedindo a tua atenção e tu, nada. Tu mal me olhas. Tu nem deves saber algo de mim. Porra, Isabel. Tu me fazes pensar em ti o dia inteiro, tu me fazes estudar cada movimento, tu me juras amor - e eu acredito! - e finges que vai cumprir as tuas promessas... eu queria ter dois braços e uma cabeça e descansá-la tristemente sobre ambos. Não é isso que tu fazes? Devias pensar na tua mãe. Ela não pode mais fazer isso. Nem eu. Eu até tento te assustar com esse papo de não ter cabeça, de assombração. Tu não me escutas. E queres saber? Eu acho que tu nem acreditas em mim. Às vezes eu bem que queria que tu tivesses um rei e não desses a ele um filho homem. Tu me machucas, Isabel, e eu nem consigo ou posso retribuir como mereces. Que falta me faz um bom machado! Enquanto isso tu te deitas e te levantas e me juras e me mentes e eu sofro calada, Isabel. Até a tua mãe teve mais voz. God save the queen! Mas se eu fosse Deus e não uma pequena ilha com territórios forçosamente anexados Deus te faria em pedaços, sem nem te dar a mística de ser uma rainha sem cabeça.


Every time I see you falling I get down on my knees and pray...

domingo, 28 de março de 2010

A Rainha do País do Verão e de Toda a Bretanha, pt. 3


 She's a Killer Queen
Gunpowder, gelatine,
Dynamite with a laser beam
 

 O reinado de Arthur durou trinta anos e depois ele foi dado como desaparecido. Foi pranteado e ganhou um enterro simbólico, com os melhores bardos da Inglaterra e violinos Stradivarius. A música que lhe foi dedicada fora decidida pela rainha, que não tinha qualquer noção de instrumentos ou notas, mas dera ao maestro uma idéia e supervisionara os arranjos. A rainha não derramou uma lágrima e o povo viu - mas o povo ficou ao seu lado. Guinevere desinteressante, Guinevere sem graça, Guinevere pudica. O povo adorava. O povo se enxergava nela. A perdedora que virou uma rainha só por causa de cavalos. Essa era a parte preferida dos contadores da história, porque até aquele momento todos já conheciam, bastava ter um avô vivo para saber. É que a lavadeira da rainha esfregou os lençóis mais vermelhos que o país já havia visto. E Guinevere não tentara esconder o machado. Ninguém sabia de onde ela tirara o machado. Talvez do jardim; talvez tivesse um caso com o jardineiro! Talvez tivesse pedido a Lancelote! Mas Lancelote chorava tanto pela morte do rei e definhara logo em seguida... a verdade que as histórias tentavam sondar era muito simples. Um dia Guinevere achou que já tinha esperado demais. Transformara-se numa violenta supernova. Sua força era tão grande e assassina que a galáxia seria reduzida a pó. Arthur fora dormir jurando à esposa que a Bretanha agora estava em paz e não acordara porque não se pode acordar sem uma cabeça colada ao corpo. O machado era muito pesado para as mãos delicadas e sem calos de Guinevere. A coroa era muito dourada para a cor apagada dos cabelos de Guinevere. Ela era tão doce e insignificante que sequer foi acusada de matar o marido. Afinal, Guinevere o amava. Talvez não como amava Lancelote, porque amar Lancelote era amar a vaidade e a vaidade era ela mesma, e acima de tudo Guinevere amava a si mesma, até que Lancelote definhou pela morte do rei e ela mandou enterrar o corpo de Lancelote no sul da Inglaterra, onde o verão durava seis meses, a milhas e milhas do corpo do rei. Mas Guinevere também amava Arthur e sua gentileza, Arthur e seu amor, Arthur e sua ingenuidade. E a coroa de Arthur. Com o corpo, a espada e a cabeça desaparecidos em alguma vala da Escócia, onde Guinevere seria enterrada dali a quinze anos, a cerimônia em memória do rei mais querido e controverso da Inglaterra - até aquele momento, é claro - terminou com a rainha subindo ao trono vazio e recolhendo a coroa. A coroa dourada, pesada, encrustada, arranhada, ferida, com sangue. A coroa de rei da Rainha. Guinevere ergueu-a aos céus e a trouxe devagar para a própria cabeça, com as próprias mãos, os próprios arranhões, feridas, sangue, a coroa que ela merecera por cada segundo de trinta anos, não pelos cavalos, mas pela força sideral que carregava, mais pesada do que a coroa, mais dourada do que a coroa. Todos a olharam. Guinevere era agora a jóia mais brilhante de todo o mundo. Ninguém questionou a Rainha do País do Verão e de Toda a Bretanha.

sábado, 27 de março de 2010

A Rainha do País do Verão e de Toda a Bretanha, pt. 2


You had to choose a side at love and divide yourself in two
The way you were, long before you were walking civil war

Durante toda a viagem Lancelote não podia tirar os olhos de Guinevere, e Guinevere retribuiu os olhares já prediposta à traição. O fenômeno de cada história ser diferente dependendo do contador não era mostrado aqui. Todos davam razão à futura rainha. Ela fora aceita por cavalos! Nem fora olhada no rosto! Talvez o rei nem se dignasse a desvirginá-la. Lancelote ainda não era tão assim amigo do rei, embora Guinevere nem sonhasse que um dia se tornariam como irmãos. Se dependesse dela, chegaria ao rei já maculada. Lancelote não aceitou o pedido mudo. E foram muito castos, de mãos dadas, na carruagem. Ninguém contava essa parte da história sem gargalhadas. A Guinevere já odiava a própria vida, você sabe, dinheiro não traz felicidade, e ser rainha também não. Agora a sua vida seria uma carruagem. De novo os cavalos. Ela queria cuspir-lhes as faces mas, ao descer, encarou aqueles olhos vazios e entendeu, ou achou que entendeu - os contadores faziam caras muito misteriosas, não explicavam a súbita compreensão da rainha. Suprimiu o cuspe na boca e, a mão ainda dada a Lancelote, foi encaminhada ao Grande Rei. Os trinta anos que se passaram podiam muito bem ter sido trinta dias ou trinta séculos, porque o espasmo de tédio que se tornaria a vida de Guinevere estava em franca expansão: uma pequena estrela que ia engolindo planetas pequeninos e meteoros ainda menores. E a gravidade crescia. Não que alguém falasse isso na época, mas ela muitas vezes foi comparada a tufões e ondas gigantes. As histórias divergiam porque cada uma contava uma aventura diferente da nossa rainha. Guinevere fumava, costume dos homens; tinha sempre cinzas nos ombros e o que antes eram sardas cor de chocolate agora eram queimaduras doloridas. Guinevere arranjava casamento para suas damas de companhia e acobertava suas traições. E Guinevere traía o rei. Todos os dias Guinevere traía o rei e traía o juramento ao pai. Ela trairia dez vezes por dia se fosse possível, mas Lancelote falhava em coragem. Lancelote amava tanto Guinevere, e amava tanto o rei... Pela primeira vez Guinevere vinha em primeiro lugar para alguém. Mas o Rei Arthur não se importava. Ele amava mais Lancelote do que amava Guinevere. E amava muito Guinevere. O Rei Arthur enchia Guinevere de jóias e vestidos, e contemplava a Rainha do País do Verão e de Toda a Grã-Bretanha com amor nos olhos e reluz na coroa de ouro. A coroa de ouro não ficaria bem em Guinevere, por isso ele jamais a emprestava, e a Rainha, de jóias reais, só tinha gargantilhas. Guinevere não sabia ler e fingia receber com encanto as cartas amorosas de Lancelote. Uma vez, o Arthur, olhe só como ele era um cara prático, resolveu contar a ela tudo que estava escrito. Ele mesmo escrevera. Guinevere rasgou as cartas ali mesmo, na frente do rei! Imagine só a ousadia! Mas não era a única ousadia. Guinevere mandou o rei trocar a bandeira das tropas por uma cruz. O povo amou mais ainda Guinevere. Uma rainha católica e santa é melhor do que qualquer rei. Mas Guinevere não era católica, não era nada. Era imersa em sentimentos silenciosos e debaixo daquela pele clara e daqueles membros frágeis e daquele corpete apertado e daqueles olhos meio violeta e daquelas manchas amareladas entre os dedos e daqueles pés machucados e aqueles joelhos arranhados havia uma fúria que se debatia como o oceano que afundava civilizações inteiras. A fúria ia e vinha em ondas, e não respondia aos movimentos lunares, mas sim à força gravitacional do tédio-estrela de Guinevere, que a essa altura já tinha a magnitude do nosso Sol, e engolia todo o hidrogênio da ponta da Via Láctea para condensar em hélio. Guinevere gostava de montar no cavalo preferido do rei e fazer sexo com Lancelote na cama do rei, por vezes com o rei. Guinevere fazia isso porque não tinha apenas raiva, tinha ódio. Meros cavalos. Ela nada mais era do que o preço a se pagar por cabeças de cavalos. O ódio esterilizara-lhe o útero, mas ela não lamentava, e os homens sempre se chocavam com essa informação, pois na sua cabeça toda mulher quer ter filhos; as mulheres que ouviam a história jamais se chocavam. Arthur não teria seu herdeiro. Lancelote teria. Quando Lancelote se casou, a pedido de Arthur e Guinevere, que precisavam de um herdeiro ao trono e à coroa-de-ouro-que-Guinevere-não-podia-tocar, casou-se com uma moça escolhida e moldada por Guinevere. A futura mãe do futuro rei. Guinevere mandou fazer a ela um vestido e mandou plantar cravos-de-defunto no jardim, para o dia em que a esposa de Lancelote morresse.

sexta-feira, 26 de março de 2010

A Rainha do País do Verão e de Toda a Bretanha, pt. 1

An engine, an engine
Chuffing me off like a Jew
A Jew to Dachau, Auschwitz, Belsen
I began to talk like a Jew
I think I may well be a Jew
Essa história é a mais peculiar, contava-se pela Bretanha em sussurros observados. E toda vez que era contada começava bem assim: essa vai te impressionar! Era a história não de uma rainha que era morta pelo marido, mas de um rei que perdia a cabeça. Assim, literalmente: jugular partida e a cabeça de um lado, o corpo de outro. E pela esposa. Que saiu impune. Peço desculpas por já ter contado o final da história, mas é que os camponeses - e cavaleiros, e cozinheiros, e todos os habitantes da Inglaterra - contavam assim mesmo, o fim e depois os detalhes, que os ouvintes sempre aguardavam avidamente. Pois bem, diziam os contadores da história, era assim. Você sabe o Rei Arthur... e eram imediatamente interrompidos pelos ouvintes, sempre, isso sempre acontecia: não, você não quer dizer que o rei decapitado era o Rei Arthur! Os que sabiam contar histórias só balançavam a cabeça como se tivessem pena da impaciência do seu público. E continuava: escute só, tinha o Rei Arthur. Ele era um rapaz jovem e destinado a ser rei. Bobagem aquilo da espada na pedra. Na verdade a espada do pai dele, que era o rei antes, só foi colocada sobre o caixão, e o Arthur pegou e jurou à mãe sobre a espada que seria um rei tão bom quanto ele. E foi isso. Mas então. O Arthur só podia ser coroado, vocês sabem, se tivesse uma rainha consorte. (Essa história, naturalmente, se perdeu com o tempo nas outras histórias da Grã-Bretanha e do mundo, mas na época todos sabiam que só se podia ser rei com uma rainha consorte, e só se podia ser rainha se se tivesse um marido. Podia-se governar, mas o poder se concentraria nos pais ou irmãos casados. Como isso era fato conhecido por qualquer cidadão ou escravo, era deixado de lado nas narrativas.) Ele procurou em muitos países e recebeu muitas ofertas, porque afinal todo pai queria ser pai da rainha. No fim, aceitou uma oferta de cavalos. Nem olhou para a noiva. É que o Arthur era assim... eu não o conheci (uns raros contadores da história haviam conhecido), mas é o que se diz, meus avós eram do tempo dele, o Arthur era desse jeito: ele era um negociador, e não é à toa, não nos governou por trinta anos? E mandou um amigo ir buscar os cavalos e a noiva. O amigo, é claro, se chamava Lancelote. Essa parte vocês conhecem da lenda (é estranho de se pensar, mas a lenda de Rei Arthur ficou famosa pela traição): lá ele encontrou a Guinevere. Aqui as histórias variavam. Algumas versões falavam de uma mocinha feiosa e irritada; outras, falam que o que lhe faltava em beleza era recompensado em ternura; mas a maioria concordava, e seria verdade mesmo se divergissem, que Guinevere era mesmo uma princesa, era mesmo uma rainha. Que usava os cabelos bonitos e sedosos em tranças e que tinha a pele delicada. Esses são, é claro, os atributos clichê de princesas e rainhas antigas, e Guinevere não era como qualquer clichê. É difícil explicar porque, se você nunca viu uma mulher como ela, não vai entender. Mas tentemos, porque os britânicos tentaram por muitas décadas. Tentemos umas idéias mais exatas. Guinevere não gostava do cheiro de flores; tinha algumas sardas nos ombros, por causa dos vestidos sem mangas que usava no País do Verão; havia rugas na volta dos seus olhos, pois sorria muito; secretamente sofria de uma síndrome que ainda não tinha nome mas nos dias atuais chamamos de síndrome do pânico; era alta e esguia; seus cabelos não eram dourados, mais pareciam ser de prata; e, como carregava a cor do segundo lugar na cabeça, também sempre seria um segundo lugar. Perto de qualquer outra rainha, e todas as histórias concordavam nesse ponto, Guinevere sequer seria notada. Qualquer mocinha bem vestida da corte lhe roubava a atenção e atraía para si todo o interesse. Não fossem os cavalos, Guinevere jamais teria casado com o Grande Rei. Essa era a frase mais popular. Foi um ditado, até, por muitos anos. Lancelote buscou Guinevere e olhou-a nos olhos cinzentos e sem graça e a amou com uma fúria raras vezes vista. Guinevere o amou da forma mais comum possível. Os românticos, e naquela época só sobrevivia à Inglaterra quem fosse muito romântico, gostavam de dizer que era uma ironia ímpar. Lancelote, que era excepcional, e amava excepcionalmente, só recebia da simples e desinteressante Guinevere um amor simples e desinteressante. Mas ele aceitou, o Lancelote. E levou a rainha para o rei com um peso no coração...

 

quarta-feira, 17 de março de 2010

Palácio da Justiça

Maria que sugeriu que a coroação fosse na Abadia de Westminster. A Abadia era fétida e fria e Maria queria ver a coroa da Rainha da Casa de Tudor refletindo as pedras cinzas. Eu posso perdoar Maria. Fiz questão de presenciar seu próprio enterro, que não foi numa Abadia nem num mausoléu digno. Ou talvez tenha sido, pensando bem; Maria não era mesmo digna. Vejo professores, pois assombro professores, contando anedotas sobre Maria, que influenciava meu marido, que era amiga do Rei. Mas eu era mais que amiga do rei e veja só como hoje me apresento: só tenho cabeça em espírito, porque em espírito não tenho corpo. Eu ainda lembro bem daquela maldita espada fria, da cor dos olhos de Maria. Acho que foi uma vingança pensada. Henrique nunca deixou de gostar de Maria. Nem de Catarina, sejamos sinceros. Ah, eu mesma não gostava de Henrique. O melhor homem da Inglaterra em muito perdia ao pior da França. É que Henrique me proporcionou duas coisas: um, a realeza, e dois, a humilhação de Maria. Persegui Maria até o fim da vida dela. Durou muito, a infeliz. E folgo em dizer que foi infeliz mesmo. Eu pareço uma velha com essas fofocas. Mas é a satisfação post mortem, entendem? Fui destituída do poder de rainha, fui assassinada, fui acusada do que não fiz, e minha irmã, que aconselhou o rei a se desquitar, que aconselhou o rei a pedir a pena de morte, e que sussurrou ao pé do ouvido do rei que eu o traíra, é lembrada como uma dama de bom coração. Eu fui perseguida por toda a minha vida e por isso hoje me dedico a promover o caos em todos os corações infiéis. Infiéis em mim; cabe a Deus se preocupar com os que não o temem. Eu tomo o exemplo de Deus. Quando morri, uma voz torta, vinda da sombra, me disse: Você pertence à Terra, volte para a Terra. Passeei por Londres e por todos os condados. Achei minha irmã. Ah, Maria. Maria chorava muito e não era pela minha cabeça rolando no chão, sendo jogada numa caixa de madeira como se fossem os restos mortais de um animal. Maria estava sendo golpeada pelo marido. Lembro-me de ter visto papai batendo em mim; nunca em Maria, pele macia cheia de manchinhas avermelhadas. E agora o meu querido cunhado enchia de roxos a pele vagabunda de Maria Bolena. Uma morta não precisa esconder seus pecados. Eu sorri. Sou uma assombração sorridente, rio mole, me movo graciosa, tão graciosa quanto ser feita de vapor me permite; eu sempre fui requintada, bela, e não precisava de anáguas para isso. O mundo é cheio dessas imagens poéticas e simbólicas que despertam a curiosidade e a obsessão nas almas mais delicadas: gente sem cabeça, assombrações de torres, corações em punho. Eu explodi em minha alegria ainda não decomposta, sem um único verme a me devorar. Chora, Maria. Gritei Chora, Maria em seus ouvidos até o dia em que morreu. E morreu chorando. Nunca uma lágrima foi derramada por mim, mas quero o crédito que mereço por muitas dessas lágrimas. Eu nunca tive o que merecia. Mil dias. O que são mil dias? Estou morta há quinhentos anos! Meu irmão por vezes me segue na Torre. Ele gosta das minhas histórias sobre Maria e Joana. Não guardo rancor de Joana. Só pioro as histórias sobre Maria. Conto dos cabelos engrenhados e de sua estupidez submissa - Maria achava mesmo que devia obedecer por ser mulher - enquanto os sinos batem, e minha voz morta ecoa por toda a Londres, viajando junto com o vento, esfriando as cervejas quentes e arrepiando as espinhas dos infiéis. Conto as histórias e meu irmão ri, ri alto, seu espírito sem corpo balançando com as badaladas, e não contenho eu mesma o riso ao ver os infiéis fazendo o sinal da cruz. Depois nos damos as mãos e saímos a cantar: Chora, Maria, chora, Maria... Daqui até o túmulo de Catarina, o único lugar onde consigo descansar em paz.

terça-feira, 16 de março de 2010

Chapel Royal of St. Peter ad Vincula

Senhora,


Eu não perdi a cabeça por Henrique. Eu perdi minha cabeça por aquilo tudo. Foi uma época meio maluca, não foi? Eu fico pensando, pensando... Eu sento, coloco a cabeça no colo, aliso meus cabelos e tento mentalmente recosturar os fios da trama que me trouxeram até a A Torre. Algumas coisas eu não consigo me lembrar, penso que seja um efeito colateral de quando cortam a sua cabeça fora com uma espada. Não doeu nada, se a senhora tem esse tipo de curiosidade. Imagino que a doença que comeu seu útero por dentro tenha sido mais dolorosa. Tantas coisas são dolorosas nessa vida. Eu me lembro de estar em um baile. Eu era aia de uma rainha firme, bonita, muito amada. Os olhos o rei passeavam pelo salão, mas isso não tirava a dignidade de pedra da minha senhora, vestida de vermelho escuro. Lembro-me de passear pela corte em festa sem ser realmente vista. Os homens conspiravam contra o rei sem herdeiro e eu me perguntava porque uma menininha não poderia ser educada para ser rainha. Eram pensamentos vagos, eu não era vista, não via as coisas direito. Já viveu no limbo, senhora Catarina? Não é agradável. É escuro e viscoso. Eu odiava. Ser era uma sombra entre a senhora e minha irmã. A sombra sobre a minha vida era imensa. No fundo, eu não fazia parte de nada. Não haviam grandes planos para mim. Eu só ouvia a música, movia o corpo devagar, num canto perto de uma grande tapeçaria. E era lá que acontecia a única coisa que me garantia que eu estava vida e era humana e que eu tinha uma chance: eu desejava. Eu confesso sem culpa, Senhora Catarina, que Henrique e suas formas redondas, seu odor pouco agradável e suas maneiras grosseiras não me despertavam grande desejo. Era você, Senhora, era sua coroa, suas jóias de pedras enormes que nunca curvavam seu pescoço, seu andar altivo, seus olhar de mulher católica, suas mãos brancas de santa. Ah, eu desejava com meu corpo, minha lascívia, meu ódio e minha alma. Eu desejava ser vista, ser amada e ser rainha e não bastava ser qualquer rainha, tinha que ser você, Senhora. Bem... depois disso as coisas aconteceram como aconteceram. Quando aquele câncer te levou, eu desfilei toda vestida de Sol pela corte. Eu quis ser vista. Eu fui vista. Pode imaginar? Eu fui realmente vista. Nem quatro herdeiros homens nascidos de um mesmo parto, como se eu fosse uma gata, me fariam ter sido tão vista como eu fui no dia da sua morte. Eles me viam. Eles me odiaram. Henrique olhou para mim tanto e com tamanho ódio que me faz compreender e concordam em parte sua bela metáfora do lago gelado. Aqueles olhos azuis! Congelados! Eu era o Sol naquele dia. Eu era o próprio deus Sol e ele me congelou com um único olhar. Eu soube que estava morta naquele segundo. Não foi o carrasco francês, não foi a Torre de Londres, não foi a luxúria de Henrique, nem a necessidade de um herdeiro. Foi aquele dia, efoi meu vestido feito de luz de Sol, no meio da corte que silenciava o luto da rainha mais amada que jamais houvera. Eu fui rainha-consorte por mil dias. E sabe, Senhora, eu amei aquela coroa cada segundo desses mil dias. Eu a honrei com meu coração. Eu não me abaixei para nenhum carrasco, como a Senhora não se curvou para nenhum de nós. Eu a honrei, honrei seu marido e honrei sua coroa! Não sei se a Senhora concorda, mas penso que ser rainha é uma bela porcaria. O que me lembra que minha menina virou rainha! Uma rainha ruiva, protestante e sem consorte, pode imaginar como e com que intensidade a minha menina foi vista? Mil vestidos amarelos! É que Isabel tinha o sangue ruim do pai, sempre teve. E acabou que eu perdi a cabeça pela coroa que não era minha, mas que eu queria tanto! Ah, Senhora! Era pesada demais, era pesada demais...




Anna,
Aia de Catarina de Aragão, Marquesa de Pembroke, Rainha Consorte da Inglaterra, Assombração da Torre de Londres.


segunda-feira, 15 de março de 2010

Peterborought

Anne,


Henrique. Henrique é um lago gelado e num dia quente. A gente sente calor e tem vontade de mergulhar. Henrique convida a gente pra mergulhar. Mergulhar dentro dele de tranças soltas, só em pele e anágua. Henrique me quis. Imediatamente. Furiosamente. Henrique, quando convida a gente para mergulhar, parece que quer afogar a gente. Eu deveria ter sabido. Acho que eu soube, Ana. Eu mergulhei em Henrique e a água fria me deu espasmos musculares, alfinetas, dolorosas, meu coração queria parar de bater, meus pulmões queriam partir em milhares de pedaços. Eu soube, Ana. Mergulhar em Henrique era ruim, mas eu queria que fosse bom e - posto que eu era rainha e dona da vontade do mundo - era bom. Henrique era um lago gelado, Ana, e um dia congelou. Pode-se dizer que foi meu ventre avesso ao gene Y, pode-se dizer que eu já não era mais tão bonita, pode-se dizer que foi por sua causa... mas Ana, Henrique é um lago gelado e tudo que se pode esperar de um lago gelado é que ele congele quando o tempo muda. E o tempo muda, Ana. O que aconteceu foi que as estações passaram, mudaram e o inverno chegou para Henrique e, sendo eu um membro costurado ao corpo de Henrique, o inverno chegou pra mim também. Eu sempre fui bonita, Ana, mesmo congelada. Eu morri congelada amando Henrique, Ana. Amando em espanhol, latim, francês e inglês fluentes. Ninguém ama como os espanhóis, ninguém ama como se ama em espanhol. Ah, Ana, você não sabe! O sangue quente na água gelada! A verdade é que vocês me parecem todos lagos gelados, com seus milhares de pedacinhos brancos, afiados, boiando. Tão bonito! Ana, eu acho que você também é um lago muito frio. É uma ilha estranha essa de vocês. Eu sinto muito por você, Ana. Mas, me perdoe o comentário, depois de todos esses anos, me reservo o direito de achar uma certa graça. Meu túmulo em Peterborought está sempre florido e, lá dentro, Ana, tem uma cabeça grudada no meu corpo. Perdão. Não posso deixar de rir.



Catarina,
Infanta de Aragão, Rainha Consorte da Grã-Bretanha, e Princesa de Gales.

 
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