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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Criatura da noite

Ser rainha é tão mortalmente cansativo que não posso nem tentar começar a entender por que alguém viria a querer ser uma. Ser rainha, meus amores, minhas lindas, lamentavelmente não é escolha; sei que não escolhi, nasci rainha e nasci o pior tipo, o mais odiado, o mais colorido, o mais venenoso. Sabe que acho mesmo que quanto mais a gente sofre menos a gente entende? Então. Não entendo quem corre atrás da realeza. Ou você nasce rainha ou nasce pra ser rainha; outro jeito não tem, não adianta tentar, linda.

Eu nasci rainha, como já disse. A coisa se mostrou óbvia desde que eu era muito criança: não porque roubasse as maquiagens da minha mãe ou usasse os saltos dela, era algo próprio e que creio estar na minha pele, até hoje vejo nela, reluzente, a expressão clara de uma rainha: você viu isso nas maiores e vê em mim também. Depois, claro, vieram os saltos e as meias, que prefiro arrastão vermelha, trama grande; queria dizer que é por algum motivo filosófico do tipo nada me prende mas tudo me prende, mas prefiro arrastão vermelha da trama grande porque acho um tesão e tudo que faço nessa vida, meu amor, é expor a minha condição de rainha com o máximo possível de tesão. A minha cabeça quando for cortada — e há de ser cortada, toda sorte de navalha já passou pelo meu pescoço e falta nada pro corte da vez ser fatal — vai ter que ser cortada com elegância e com tesão. Por menos que isso eu não me dou o trabalho, não vale o meu suor.

domingo, 1 de agosto de 2010

O paradoxo da Rainha de Copas

The Queen had only one way of settling all difficulties, great or small. 'Off with his head!' she said, without even looking round.
  
A Rainha de Copas, a despeito de seu status de rainha consorte, era ouvida pelo Rei em todas as suas idéias e objeções e mil maneiras de agradar o reino e seus súditos. A Rainha de Copas era uma boa rainha, melhor até regente do que consorte, mas satisfeita com seu status de consorte, humilde e sem ambições, a rainha que qualquer rei sonharia em ter e calhou de ser do Rei de Copas, que por sua vez não fazia muita questão de obediência, humildade e todo o resto. Isso tudo até a chegada do valete, valete também de Copas, mas sem a letra maiúscula da Rainha e do Rei; uma carta menor do baralho, ainda que permanecesse uma carta e fosse de Copas. A Rainha e o Rei de Copas não podiam ter filhos e por isso chegou o valete, um primo distante, eles não sabiam ao certo; o Rei e a Rainha de Copas tinham muito bom coração e não duvidaram do valete, que aliás não devia mesmo ter sido duvidado. O valete era um bom valete, posto que o valete é uma carta alta do baralho e serve bem a todos os jogos, exceto talvez os de truco e os de ler a sorte. Como no poeminha tão pouco conhecido, chegou o valete de Copas roubar a Rainha de Copas; ela perdeu sua humildade, seu espírito sem ambições e teria perdido o status de rainha consorte se o valete não a tivesse impedido. O valete não queria se casar com a Rainha de Copas; mal queria o trono que seria seu quer quisesse, quer negasse. O valete só queria suas festas e suas moças e seus moços e seus banquetes, e a Rainha de Copas queria o valete e o valete e o valete e o valete e o Rei de Copas, desgostoso e traído, nada disse, pois era muito mais moderado, comedido do que a Rainha de Copas; pelo menos, era mais moderado, comedido do que a Rainha de Copas quando a Rainha de Copas estava apaixonada, coisa que estava agora, e nunca estaria pelo Rei. O Rei de Copas procurou uma solução que satisfizesse a todos, mas a Rainha de Copas, que nunca deixara de ser bondosa, mesmo agora que não era humilde e angariava algumas ambições, queria uma solução que compensasse sua dor. Bem, julgou o Rei de Copas, ao ouvir as argumentações sempre sensatas da Rainha, é justo fazer perder a cabeça a quem fez perder o coração. Cortem a cabeça dele! As coisas são engraçadas.

Para quem sente falta delas, e de nós.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Rapunzel

Eu encontrei uma dama nos campos,
Tão linda... uma jovem fada,
Seu cabelo era longo e seus passos tão leves,
E selvagens eram seus olhos.



Sentada nessa cama. Nessa cama enorme. Um exagero de cama. Trancada nesse quarto, no alto dessa torre. Uma torre muito alta. Um espelho muito grande. Tão grande que é difícil circular pelo quarto sem dar de cara com ele e ele sou sempre eu mesma. Eu olho no espelho, eu me vejo lá mais uma vez. Eu não existo de verdade, eu não existo de verdade, eu não existo de verdade. Eu sou uma fábula. Uma história que se conta para ensinar as meninas o quão valorosa é a sua virgindade. Então, o que eu olho no espelho e vejo, não existe de verdade. Eu nem sei o que estou fazendo aqui, posto que não sou rainha. Ah sim. É porque serei, certo que é esse o destino das princesas. Nunca me disseram objetivamente que sou uma princesa. Ouvi dizer que sou filha de um lavrador qualquer. Mas torre, cabelão, espartilho, espera, tédio. Só posso ser uma princesa! Sou tão princesa quanto as outras e serei tão rainha quanto qualquer outra. Serei, tão logo ele chegue e peça pelas minhas tranças. Got it? Pedir as tranças. E eu jogarei as minhas tranças longuíssimas, nunca cortadas, totalmente imaculadas para que ele suba ao meu quarto. Hã-hã? Pois é. Óbvio assim. Eu, sentada nessa cama, trancada nesse quarto, no alto dessa torre, filha de um camponês e um rabanete, sem ser princesa nem ser nada, esperando alguém escalar minhas tranças virgens. Pelo amor de Deus. Me jogar do alto da torre é uma idéia recorrente, se eu não desconfiasse que meu cabelo enroscaria em alguma planta, me deixando viva, ensanguentada e meio careca. É no meio desse pensamento gore que o sujeito finalmente aparece. Alguma coisa no conto diz que eu estaria cantando lindamente e ele viria seguindo o som da minha voz. Não exatamente. Se qualquer transeunte dos arredores da torre me ouvisse cantar, compreenderia porque Frau Gothel me trancou aqui em cima. O príncipe veio foi atrás do meu som alto. A gente ouve um bocado de Black Metal quando está entediada, deprimida e precisa esfregar os azulejos do banheiro. Ele ouviu e, cabeludinho jogador de RPG e fã de metal que deve ser, veio atrás achando que poderia ser, talvez ,uma baladinha open bar. Ele chega. Pede as tranças. Eu já sei o que devo fazer. Todo mundo nasce sabendo. Olho pela janela. Ele tem um cavalo, não é branco, mas é um animal de porte respeitável. Dizem que as mulheres estão sempre interessadas nesse tipo de coisa, não? Eu jogo a trança. Ele sobe pela trança e, através da trança, chega aos meus aposentos para a nobre missão de me resgatar. Não sem antes receber sua nobre recompensa, evidentemente. Porque não basta subir pelos cabelos virgens de uma moça encarcerada numa torre: você tem que foder com ela também. Quem falou que o mundo é justo? Uma garota faz o que tem que fazer. Não tem muita graça enquanto ele está me libertando. Imagino que ele seja inexperiente ou esteja exausto da escalada capilar. Estou olhando para o espelho o tempo todo. Terminadas as formalidades, o rapaz reclama de sede, eu penso que ele deve estar mesmo exausto da escalada. Ofegante e ainda deslumbrando da virgindade perdidada e da roubada, ele bebe a taça de vinho um gole só. Não era uma taça pequena. Exausto e sem costume de beber, o pobrezinho dormiu depressa, sem ter nem tempo de vestir as ceroulas. Definitivamente terminadas as formalidades, eu abro a porta. Obviamente meu quarto tem porta, uma porta de madeira pesada e nobre. Uma bela porta. Destrancada. Bem como essa torre aqui também tem uma escada e uma outra porta lá embaixo. É estúpido pensar que não e que eu estaria trancada aqui. É uma idéia bem estúpida. Não sei da onde tiram essas idéias. Pois bem, eu abro a porta e me vejo mergulhada em liberdade. O cavalo está lá, esperando por ordens. Percebo que o príncipe deixou sua coroa pendurada no pito da sela, como se aquilo fosse uma moto e ele tivesse parado num posto de gasolina para comprar uma cerveja. Que tipo de idiota faria isso? Coloco a coroa e me torno uma rainha conquistadora. Uma rainha de golpe de estado, de ocupação pacífica, de guerra fria. Uma verdadeira rainha, por direito coroada. Monto no cavalo de pernas abertas, como um homem, e cavalgo em direção ao destino das rainhas. Quanto tempo agora? Quanto tempo até eu perder minha cabeça?


domingo, 21 de março de 2010

Vida Seca

A primeira rainha do mundo surgiu numa das curvas do Golfo do México. Foi, é claro, sorte comum das rainhas, decapitada; mas não até muitos e muitos anos de governo se passarem. Tinha a pele escura e o cabelo da cor do nanquim. Naturalmente não conhecia nanquim nem kajal, mas a comparação lhe servia com justiça. A primeira rainha do mundo foi escolhida pelo povo. Ficava à frente nas batalhas e era excelente estrategista. A primeira rainha do mundo se comportava como alguém que Maria Antonieta chamaria de selvagem e que revoltaria o estômago das czarinas. E receberia a admiração suprema de todas as mulheres orgulhosas dos nossos tempos. Não se sabe ao certo o nome dela, da primeira. Conta-se entre umas poucas famílias mexicanas, antigas, intocadas pela seca, pelo silêncio e pelo desprezo, que a primeira rainha era muito mais baixa do que a estatura média da tribo, e que isso sempre a favorecia nas batalhas. Que corria mais rápido do que o vento e que se esterilizara tão cedo quanto sua menarca. A primeira rainha pegou em armas e sabia onde achar as melhores frutas para as crianças de seu povo. Então um dia se feriu na guerra. O corte na perna era longilíneo e sangrava todas as noites e todos os dias. E logo não podia mais andar direito. Caía. Nunca antes havia caído. Ralava os joelhos, feria os braços ao buscar apoio. Era uma cena de dar pena. Passou a ficar. nas linhas de trás, gritando comandos. Mas aos poucos a doença drenou também sua voz, e ela passou a sinalizar. Cada um dos membros da rainha foi sendo metaforicamente arrancado, sem qualquer anestesia, pois, mesmo se houvesse alguma à época, julgariam a rainha forte demais para merecê-la. Tão logo a rainha não podia mais indicar as melhores frutas, pois seus braços eram feridos e fracos; seus olhos se tornaram míopes, astigmáticos; a audição, que não era muito boa, antes compensada pela agilidade, passou a ser cobrada. A rainha, que fora a primeira figura de poder de toda a humanidade, agora era a primeira figura de passado. De uma glória hoje finda. A rainha ergueu bem o pescoço comprido e tirou do resto do seu orgulho a força para caminhar. Pensava em como acabar com aquilo. Para o bem do seu povo. Que viesse uma nova rainha, uma mulher forte e cheia de saúde, desempenhar o papel que ela agora descansava sobre a mesa primitiva, com suas plantas primitivas. E sua cabeça rolou pelo chão. Não por vontade própria, pois sua idéia era uma simples renúncia e um recolhimento às margens do rio, onde o Sol abraçaria sua pele escura com amor; o novo estrategista de guerra da tribo não era muito bom, ou talvez fosse um espião, e a primeira medida dos povos inimigos foi livrar-se da incômoda rainha. Teria sido mais correto que lhe arrancassem o coração, selando de outra forma a sorte de todas as mulheres rainhas, princesas ou imperatrizes, que desde lá ficaram assombradas para sempre por um busto sem cabeça; mas as tribos antigas não tinham qualquer noção de anatomia.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Confecção de Coroas

Antes de tudo aqui se tem um compromisso com a verdade. Eis o compromisso, selado com um anel de ouro e um beijo caloroso na frente do padre: se a verdade é muito bonita, conte; se a verdade é muito feia, torne-a bonita. Então falemos a verdade, que é bonita à sua maneira: Morgana não era rainha nem princesa. Não falamos da Morgana le Fay, ou Fata Morgana, Princesa da Bretanha, que também teve umas verdades meio bonitas, e outras assustadoras. Essa Morgana era uma garota diferente. Onde a beleza entra é fácil de se ver. Aqui há sempre uma queda pelas injustiçadas e via de regra as rainhas e princesas foram injustiçadas, cada uma por um motivo, e todas tiveram um final - e, por vezes, um começo - tétrico. Essa Morgana era plebéia da região mais pobre de Portugal. Trabalhava no campo, e o campo naquela época era triste e cinzento, ainda mais do que os campos de hoje, onde se crê no idílio. As folhas mais bonitas já eram muito amarelas e a comida era escassa; quando havia, era mal-cozida, mal temperada, e não havia gosto em comer. Por isso Morgana era muito magra e muito fraca. Não conseguia correr pelos campos, mal tinha forças para colher as raízes mortas. Então Morgana lia. Claro, à época impressões eram caras, e o único material para se ler sempre era o jornal da coroa, que Morgana não entendia bem, mas sentia que não gostaria, se entendesse. O que Morgana lia eram as estrelas. Quando era muito cedo e o Sol ainda doía nos olhos míopes sem tratamento da moça, tentava procurar os pequenos pontinhos brancos no lábaro azul. Às vezes não conseguia, e sua mãe, com a cadência que só o português luso tem, lhe gritava para parar de olhar tanto para o céu, que seus olhos ficariam cegos. Morgana não discutia, pois a mãe também era fraca, e era dada a desmaios, e seus nervos eram delicados. Então Morgana começava a ler as vozes dos outros camponeses a gritar, lia as reações, lia os passos. Morgana se dedicava, sem saber, a ler a vida. E lia todos os dias, e lia com avidez; e quando chegava a noite lia as estrelas imaginando nelas as faces que lia durante o dia, e aos poucos começou a dar uma nova forma àquelas estrelas, e dar a elas novos sentidos, e descrever-lhes as órbitas, que ela nem sabia bem o que eram . É claro, o compromisso com a verdade não nos permite chamá-la de Rainha Morgana, Princesa Morgana, Imperatriz Morgana, nem de nada. Era só plebéia Morgana. Ninguém Morgana. Nada Morgana. Mas se seu coração não lhe conferia a realeza de cem mil coroas, então nenhuma outra rainha merece o título que tem.

 

domingo, 14 de março de 2010

Festa a Fantasia

Can’t stop what’s coming, can’t stop what’s on its way, o vestido é pesado e o corpete é mais apertado até do que se espera de um corpete. Os sapatos são desconfortáveis e baixos, e ela queria ser a mais alta do salão. Mais até que os homens e quase tocar o lustre de cristal. O vestido também tem cristais, não são diamantes, ela pensa que o nome seja zircônia; brilham e machucam os olhos, um perigo para os portadores de olhos e cabeça que se encontrem na festa. Can’t stop what’s coming, can’t stop what’s on its way, é difícil ser princesa, é difícil ser coroada. O vestido da Princesa é imaculadamente branco e os brilhantes têm as cores do brasão da família. O vestido é odioso e o baile, de máscaras. Só mesmo a Princesa para ser coroada num baile de máscaras. Será inútil, pois mesmo que a máscara dela ocupe toda a sua cabeça a Princesa será reconhecível. A coroa da Princesa havia pertencido à mãe e era de ouro maciço, pesada demais para uma cabeça feita de vento, e mais pesada ainda para um pescoço solitário. You don’t need my voice, girl, you’ve your own. A Princesa pega sua máscara imaculadamente branca com os mesmos cristais das cores do brasão da família e desce com seu detestável vestido e seus sapatos torturantes. A cerimônia é rápida porque ninguém dá atenção à Princesa que se torna Rainha, nem à coroa que podia comprar as propriedades de todos os presentes. É duro para a Princesa. Eu posso entendê-la, qualquer um pode. É triste saber que a gente nunca vai ser tão bom quanto os outros. A Princesa dança a noite inteira e recebe com doçura as homenagens que lhe são cabidas e prestadas com essa mesma consciência. No dia seguinte encontram a Princesa com a máscara ainda no rosto e a corda enfeiando sua delicada gargantilha de ouro.

 

sexta-feira, 12 de março de 2010

Sangue absolutista

O marido da Rainha Sem Cabeça não era rei e tinha cabeça. O marido da Rainha Sem Cabeça não tinha era olhos; para ele a Rainha Sem Cabeça ter cabeça ou não era indiferente, pois não via nem seus cabelos nem seus olhos nem podia descrever a pele, que não sabia a que cor atribuir, ou mesmo o que era uma cor. O marido da Rainha Sem Cabeça a seguia por todos os lados, quando a Rainha Sem Cabeça conseguia ou se dispunha a andar. Não era sempre que ela o fazia, então, na maior parte do tempo, o marido da Rainha Sem Cabeça sentava-se ante a uma mesa de xadrez e uma garrafa de whiskey e tateava as peças e o tabuleiro com cuidado. Jogava sozinho e sua peça preferida, ora que dúvida, era a Rainha. A Rainha tinha cabeça e uma coroa pontuda e gelada. O marido da Rainha Sem Cabeça sempre se perguntava de que cor era a coroa de sua esposa; fora informado, é claro, que a Rainha Sem Cabeça há muito não podia usar uma coroa. Mas já tivera uma e nunca o deixara tocá-la. O marido da Rainha Sem Cabeça só ganhava com as peças pretas e sempre com a Rainha parada diante do Rei. A Rainha era tão mais útil do que o Rei. A Rainha dominava o tabuleiro enquanto o Rei dava passadas tímidas, insignificantes para a guerra. A Rainha, sim, governava. O marido da Rainha Sem Cabeça movia suas órbitas vazias para onde sua amada esposa decapitada se encontrava, seguindo o cheiro do sangue real. Sorria com a coroa da Rainha Sem Cabeça sobre o seu próprio crânio intacto. La guerre c’est moi.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Antes de mais nada

Eu sou uma rainha. Bem, seria se eu tivesse cabeça que se pudesse coroar. Não que minha cabeça seja indigna de coroação, é que eu simplesmente não tenho cabeça alguma. Dois pés, pernas, coluna, abdome, tórax, e pescoço de rainha, mas nenhuma cabeça. Uma peculiar rainha sem cabeça. Uma rainha descabeçada, se preferir um termo divertido. De vez em quando eu tenho sede. Uma terrível sede de água. Quando bebo água, ela escorre pelo meu pescoço, colo e alguns filetes de água fria chegam a barriga me dando um arrepio indencente. O resto dela se espalha pelo chão e, enventualmente, molha meus pés e a barra bordada do meu vestido. Não é satisfatório. Eu ainda tenho sede. Sede de água inodora, insípida e incolor. Água dessas que só existe em jarros de prata, se jarros de prata e bacias em quartos de dormir ainda forem coisas que existam. A única coisa que umedece minha garganta é o sangue. Sangue é coisa que não mata a sede da gente. Quando você é uma monarca absolutista sem cabeça, as pessoas não se importam com a qualidade da água que vão te servir, sabe? Parece que fazem por maldade. Mesmo sem nariz eu quase sinto o cheiro da água fétida e contaminada que pretendem que eu beba. Minha vingança é não ter cabeça e não poder beber nada. Tem muita maldade nesse mundo, sabe? Muita maldade para pouca monarquia. Muita maldade para pouca ou nenhuma cabeça. Ah, essa conversa está me dando enxaqueca. A vingança deles é essa. É ter me tirado a cabeça e ter me deixado com a dor. Quereria tomar um comprimido, mas como é que eu vou engolir essa porcaria sem um gole d'água?


terça-feira, 9 de março de 2010

Orgulho e Sensibilidade

Não é que o mundo esteja contra você. É que em primeiro lugar o mundo não pode te compreender. O mundo é vasto e compreende tundras e desertos. O mundo suporta ventos que quebram a barreira do som, tempestades que desabrigam famílias. O mundo faz tudo isso sem um pingo de remorso, sem uma gota de comiseração. O mundo se diverte. O mundo vê um adulto infeliz que trabalhou o dia inteiro e se sente desprezado pelos filhos e ri com escárnio. Ele não está contra você; ele só não liga. O mundo é duro, passou por muita coisa, tempestades estelares e asteróides visitantes rachando toda a sua estrutura, manchando a crosta terrestre, o mundo guardou muita coisa desde o seu núcleo. Você bem deve saber que lá dentro há metais fundidos em temperaturas inimagináveis, queimando o planeta, dando energia. Talvez isso seja a raiva toda. A resposta às crueldades da natureza, aos tapas que leva na cara. É que o mundo não te compreende, embora devesse, embora ele faça o mesmo que fizeram com ele, e ele tenta te ensinar como foi ensinado. Talvez no fundo ele queira o seu bem.

 
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