Ser rainha é tão mortalmente cansativo que não posso nem tentar começar a entender por que alguém viria a querer ser uma. Ser rainha, meus amores, minhas lindas, lamentavelmente não é escolha; sei que não escolhi, nasci rainha e nasci o pior tipo, o mais odiado, o mais colorido, o mais venenoso. Sabe que acho mesmo que quanto mais a gente sofre menos a gente entende? Então. Não entendo quem corre atrás da realeza. Ou você nasce rainha ou nasce pra ser rainha; outro jeito não tem, não adianta tentar, linda.
Eu nasci rainha, como já disse. A coisa se mostrou óbvia desde que eu era muito criança: não porque roubasse as maquiagens da minha mãe ou usasse os saltos dela, era algo próprio e que creio estar na minha pele, até hoje vejo nela, reluzente, a expressão clara de uma rainha: você viu isso nas maiores e vê em mim também. Depois, claro, vieram os saltos e as meias, que prefiro arrastão vermelha, trama grande; queria dizer que é por algum motivo filosófico do tipo nada me prende mas tudo me prende, mas prefiro arrastão vermelha da trama grande porque acho um tesão e tudo que faço nessa vida, meu amor, é expor a minha condição de rainha com o máximo possível de tesão. A minha cabeça quando for cortada — e há de ser cortada, toda sorte de navalha já passou pelo meu pescoço e falta nada pro corte da vez ser fatal — vai ter que ser cortada com elegância e com tesão. Por menos que isso eu não me dou o trabalho, não vale o meu suor.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Criatura da noite
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domingo, 1 de agosto de 2010
O paradoxo da Rainha de Copas
The Queen had only one way of settling all difficulties, great or small. 'Off with his head!' she said, without even looking round.
A Rainha de Copas, a despeito de seu status de rainha consorte, era ouvida pelo Rei em todas as suas idéias e objeções e mil maneiras de agradar o reino e seus súditos. A Rainha de Copas era uma boa rainha, melhor até regente do que consorte, mas satisfeita com seu status de consorte, humilde e sem ambições, a rainha que qualquer rei sonharia em ter e calhou de ser do Rei de Copas, que por sua vez não fazia muita questão de obediência, humildade e todo o resto. Isso tudo até a chegada do valete, valete também de Copas, mas sem a letra maiúscula da Rainha e do Rei; uma carta menor do baralho, ainda que permanecesse uma carta e fosse de Copas. A Rainha e o Rei de Copas não podiam ter filhos e por isso chegou o valete, um primo distante, eles não sabiam ao certo; o Rei e a Rainha de Copas tinham muito bom coração e não duvidaram do valete, que aliás não devia mesmo ter sido duvidado. O valete era um bom valete, posto que o valete é uma carta alta do baralho e serve bem a todos os jogos, exceto talvez os de truco e os de ler a sorte. Como no poeminha tão pouco conhecido, chegou o valete de Copas roubar a Rainha de Copas; ela perdeu sua humildade, seu espírito sem ambições e teria perdido o status de rainha consorte se o valete não a tivesse impedido. O valete não queria se casar com a Rainha de Copas; mal queria o trono que seria seu quer quisesse, quer negasse. O valete só queria suas festas e suas moças e seus moços e seus banquetes, e a Rainha de Copas queria o valete e o valete e o valete e o valete e o Rei de Copas, desgostoso e traído, nada disse, pois era muito mais moderado, comedido do que a Rainha de Copas; pelo menos, era mais moderado, comedido do que a Rainha de Copas quando a Rainha de Copas estava apaixonada, coisa que estava agora, e nunca estaria pelo Rei. O Rei de Copas procurou uma solução que satisfizesse a todos, mas a Rainha de Copas, que nunca deixara de ser bondosa, mesmo agora que não era humilde e angariava algumas ambições, queria uma solução que compensasse sua dor. Bem, julgou o Rei de Copas, ao ouvir as argumentações sempre sensatas da Rainha, é justo fazer perder a cabeça a quem fez perder o coração. Cortem a cabeça dele! As coisas são engraçadas.
Postado por Julia às 02:19 3 comentários
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quinta-feira, 25 de março de 2010
Rapunzel
Eu encontrei uma dama nos campos,
Tão linda... uma jovem fada,
Seu cabelo era longo e seus passos tão leves,
E selvagens eram seus olhos.

Sentada nessa cama. Nessa cama enorme. Um exagero de cama. Trancada nesse quarto, no alto dessa torre. Uma torre muito alta. Um espelho muito grande. Tão grande que é difícil circular pelo quarto sem dar de cara com ele e ele sou sempre eu mesma. Eu olho no espelho, eu me vejo lá mais uma vez. Eu não existo de verdade, eu não existo de verdade, eu não existo de verdade. Eu sou uma fábula. Uma história que se conta para ensinar as meninas o quão valorosa é a sua virgindade. Então, o que eu olho no espelho e vejo, não existe de verdade. Eu nem sei o que estou fazendo aqui, posto que não sou rainha. Ah sim. É porque serei, certo que é esse o destino das princesas. Nunca me disseram objetivamente que sou uma princesa. Ouvi dizer que sou filha de um lavrador qualquer. Mas torre, cabelão, espartilho, espera, tédio. Só posso ser uma princesa! Sou tão princesa quanto as outras e serei tão rainha quanto qualquer outra. Serei, tão logo ele chegue e peça pelas minhas tranças. Got it? Pedir as tranças. E eu jogarei as minhas tranças longuíssimas, nunca cortadas, totalmente imaculadas para que ele suba ao meu quarto. Hã-hã? Pois é. Óbvio assim. Eu, sentada nessa cama, trancada nesse quarto, no alto dessa torre, filha de um camponês e um rabanete, sem ser princesa nem ser nada, esperando alguém escalar minhas tranças virgens. Pelo amor de Deus. Me jogar do alto da torre é uma idéia recorrente, se eu não desconfiasse que meu cabelo enroscaria em alguma planta, me deixando viva, ensanguentada e meio careca. É no meio desse pensamento gore que o sujeito finalmente aparece. Alguma coisa no conto diz que eu estaria cantando lindamente e ele viria seguindo o som da minha voz. Não exatamente. Se qualquer transeunte dos arredores da torre me ouvisse cantar, compreenderia porque Frau Gothel me trancou aqui em cima. O príncipe veio foi atrás do meu som alto. A gente ouve um bocado de Black Metal quando está entediada, deprimida e precisa esfregar os azulejos do banheiro. Ele ouviu e, cabeludinho jogador de RPG e fã de metal que deve ser, veio atrás achando que poderia ser, talvez ,uma baladinha open bar. Ele chega. Pede as tranças. Eu já sei o que devo fazer. Todo mundo nasce sabendo. Olho pela janela. Ele tem um cavalo, não é branco, mas é um animal de porte respeitável. Dizem que as mulheres estão sempre interessadas nesse tipo de coisa, não? Eu jogo a trança. Ele sobe pela trança e, através da trança, chega aos meus aposentos para a nobre missão de me resgatar. Não sem antes receber sua nobre recompensa, evidentemente. Porque não basta subir pelos cabelos virgens de uma moça encarcerada numa torre: você tem que foder com ela também. Quem falou que o mundo é justo? Uma garota faz o que tem que fazer. Não tem muita graça enquanto ele está me libertando. Imagino que ele seja inexperiente ou esteja exausto da escalada capilar. Estou olhando para o espelho o tempo todo. Terminadas as formalidades, o rapaz reclama de sede, eu penso que ele deve estar mesmo exausto da escalada. Ofegante e ainda deslumbrando da virgindade perdidada e da roubada, ele bebe a taça de vinho um gole só. Não era uma taça pequena. Exausto e sem costume de beber, o pobrezinho dormiu depressa, sem ter nem tempo de vestir as ceroulas. Definitivamente terminadas as formalidades, eu abro a porta. Obviamente meu quarto tem porta, uma porta de madeira pesada e nobre. Uma bela porta. Destrancada. Bem como essa torre aqui também tem uma escada e uma outra porta lá embaixo. É estúpido pensar que não e que eu estaria trancada aqui. É uma idéia bem estúpida. Não sei da onde tiram essas idéias. Pois bem, eu abro a porta e me vejo mergulhada em liberdade. O cavalo está lá, esperando por ordens. Percebo que o príncipe deixou sua coroa pendurada no pito da sela, como se aquilo fosse uma moto e ele tivesse parado num posto de gasolina para comprar uma cerveja. Que tipo de idiota faria isso? Coloco a coroa e me torno uma rainha conquistadora. Uma rainha de golpe de estado, de ocupação pacífica, de guerra fria. Uma verdadeira rainha, por direito coroada. Monto no cavalo de pernas abertas, como um homem, e cavalgo em direção ao destino das rainhas. Quanto tempo agora? Quanto tempo até eu perder minha cabeça?

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domingo, 21 de março de 2010
Vida Seca
Postado por Julia às 14:50 9 comentários
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quinta-feira, 18 de março de 2010
Confecção de Coroas
Postado por Julia às 00:02 8 comentários
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domingo, 14 de março de 2010
Festa a Fantasia
Postado por Julia às 21:59 5 comentários
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sexta-feira, 12 de março de 2010
Sangue absolutista
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quinta-feira, 11 de março de 2010
Antes de mais nada
Postado por Mayra às 14:34 4 comentários
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terça-feira, 9 de março de 2010
Orgulho e Sensibilidade
Não é que o mundo esteja contra você. É que em primeiro lugar o mundo não pode te compreender. O mundo é vasto e compreende tundras e desertos. O mundo suporta ventos que quebram a barreira do som, tempestades que desabrigam famílias. O mundo faz tudo isso sem um pingo de remorso, sem uma gota de comiseração. O mundo se diverte. O mundo vê um adulto infeliz que trabalhou o dia inteiro e se sente desprezado pelos filhos e ri com escárnio. Ele não está contra você; ele só não liga. O mundo é duro, passou por muita coisa, tempestades estelares e asteróides visitantes rachando toda a sua estrutura, manchando a crosta terrestre, o mundo guardou muita coisa desde o seu núcleo. Você bem deve saber que lá dentro há metais fundidos em temperaturas inimagináveis, queimando o planeta, dando energia. Talvez isso seja a raiva toda. A resposta às crueldades da natureza, aos tapas que leva na cara. É que o mundo não te compreende, embora devesse, embora ele faça o mesmo que fizeram com ele, e ele tenta te ensinar como foi ensinado. Talvez no fundo ele queira o seu bem.
Postado por Julia às 02:08 6 comentários
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