quinta-feira, 11 de março de 2010

Antes de mais nada

Eu sou uma rainha. Bem, seria se eu tivesse cabeça que se pudesse coroar. Não que minha cabeça seja indigna de coroação, é que eu simplesmente não tenho cabeça alguma. Dois pés, pernas, coluna, abdome, tórax, e pescoço de rainha, mas nenhuma cabeça. Uma peculiar rainha sem cabeça. Uma rainha descabeçada, se preferir um termo divertido. De vez em quando eu tenho sede. Uma terrível sede de água. Quando bebo água, ela escorre pelo meu pescoço, colo e alguns filetes de água fria chegam a barriga me dando um arrepio indencente. O resto dela se espalha pelo chão e, enventualmente, molha meus pés e a barra bordada do meu vestido. Não é satisfatório. Eu ainda tenho sede. Sede de água inodora, insípida e incolor. Água dessas que só existe em jarros de prata, se jarros de prata e bacias em quartos de dormir ainda forem coisas que existam. A única coisa que umedece minha garganta é o sangue. Sangue é coisa que não mata a sede da gente. Quando você é uma monarca absolutista sem cabeça, as pessoas não se importam com a qualidade da água que vão te servir, sabe? Parece que fazem por maldade. Mesmo sem nariz eu quase sinto o cheiro da água fétida e contaminada que pretendem que eu beba. Minha vingança é não ter cabeça e não poder beber nada. Tem muita maldade nesse mundo, sabe? Muita maldade para pouca monarquia. Muita maldade para pouca ou nenhuma cabeça. Ah, essa conversa está me dando enxaqueca. A vingança deles é essa. É ter me tirado a cabeça e ter me deixado com a dor. Quereria tomar um comprimido, mas como é que eu vou engolir essa porcaria sem um gole d'água?


4 comentários:

Julia disse...

isso dá um filme do tim burton.

WAIT.

hahahaha lindo! ♥

Tangerina disse...

Muito digno. ♥

Bianca Caroline disse...

se ela deseja água agora é por já ter tomado, certo? então ela já teve cabeça...

.cah. disse...

Conforme eu lia, foi me dando uma agonia, sabe? Lembrei da sede que dá quando a gente acorda no dia seguinte à bebedeira. Como se já não bastasse a vida dessas rainhas serem interrompidas tão abruptamente, o restante da existência delas ainda tem de ser fadado à sede. Um pena. Eu certamente brindaria em homenagem a elas.

 
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