Munique não se estende em planícies e imagens poéticas. A capital da Bavária se parece com qualquer outra grande cidade do mundo: prédios altos e cinzas, chão duro e cinza, pessoas duras e cinzas. É o lugar perfeito para se conhecer um grande amor — ou, pelo menos, foi a história dela. Um senhor mais velho e baixinho muito interessado na moça de dezessete anos, estagiária do estúdio de fotografia.
Algumas coisas apenas as câmeras podem captar. É um modo como a luz entra e é apreendida, e qualquer coisa pode afetá-la ou transformá-la; é uma união de foco e luz, e as cores só existem por causa da luz, por como ela atravessa, sua reflexão e refração.
Em Munique, no outono amarelado e cinza de 1929, a moça de dezessete anos, estagiária do estúdio de fotografia, tirou uma foto do senhor mais velho e baixinho que estava muito interessado nela. Ele não a estava olhando. Ria afetado com o dono da loja, uma das mãos no bolso do terno marrom, velho mas em bom estado, bem alinhado, feito sob medida. A moça de dezessete anos, estagiária do estúdio de fotografia, captou um senhor mais velho e baixinho que de todo não se parecia muito com aquele senhor, real, mais velho e baixinho. A sua foto em preto e branco mostrava-o mais altivo, mais decidido, até mesmo mais alegre do que ele parecia ao rir de verdade.
Em Munique, a parte mais movimentada, barulhenta e diversa de toda a Bavária, que é por si só a parte mais movimentada, barulhenta e diversa de toda a Alemanha, as moças de dezessete anos, estagiários do estúdio de fotografia, são impressionáveis até mesmo com fotografias em preto e branco. Elas às vezes tentam se matar. Elas às vezes tentam se matar duas vezes. A estagiária em questão deu sorte; o senhor baixinho da fotografia virou-se para ela e sorriu. E tornou a sorrir no ano seguinte. E sorriu quando ela se recuperou do primeiro quase-suicídio. E chorou quando ela se recuperou do segundo.
Os hábitos morrem devagar, e o da fotografia morreu com a estagiária, que nem era mais estagiária nem mais tinha dezessete anos. Ela continuou surpreendendo o senhor baixinho com lentes. E se mudou de Munique, onde tanto fazia ser outono ou primavera.
Em Berlim era sempre primavera. Mesmo quando estava nevando, sempre havia flores em Berlim. É a impressão que você teria ao ver as fotos da moça: ela também surpreendia as poucas flores que nasceram durante a guerra. Ela também surpreendia os espelhos e os amigos do senhor baixinho e mais velho. Muitos anos depois de sua morte, ainda era lembrada como uma moça muito bonita, muito delicada, muito bem arrumada. Não havia muito o que falar de ruim dela. É por isso que não falaremos.
O senhor baixinho e mais velho muito tinha a dizer sobre muitas coisas, mas pouco dizia sobre ela. Ele gostava de ouvi-la falar; era a única pessoa em toda a Alemanha que podia falar mais do que ele. Ela não gostava disso. Ela não gostava de nada. Ela gostava de suas fotos, de suas flores, de suas roupas, de suas revistas. Ela não gostava de Munique. Não gostava da Bavária. Gostava um pouco de Berlim; gostava um pouco da Alemanha; gostava um pouco do senhor baixinho e mais velho. Estava sempre incerta quanto a si mesma. Gostava do vestido preto que usou no próprio casamento.
O mais notável e curioso que se pode dizer sobre essa moça é que ela cortou a própria cabeça antes que se atrevessem a querê-la decapitada.
Eva Braun foi a última rainha da Alemanha.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
As cinzas do Elba
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Marcadores: Alemanha
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Gotas de sangue
Às vezes eu sinto falta da minha cabeça. Acho que as outras também sentem. Mas é que elas estão mortas mesmo e tudo o que dizem não passa de uma ilusão patética. Eu estou bem viva. E sem cabeça. E com sede, como vocês já sabem. Ah, eu suspiro. Eu sinto falta do meu crânio delicado, meu nariz fino, meus lábios cor-de-rosa. Eu sinto falta principalmente do sentido do olfato. Meu nariz era muito bonito. Às vezes me ocorre o que devem ter feito com minha cabeça. Será que enterraram? Queimaram? Sei que mantiveram minha coroa. Eu sinto falta dela. Sinto falta do cheiro, do brilho... eu não sinto falta de estar viva, o que é curioso. Só sinto falta das coisas que faziam estar viva - e ser Rainha, deus sabe que ser rainha é difícil - valer a pena...
Se a guilhotina doeu? Deixar a Áustria naquela fronteira fria e azeda foi muito pior. A França não é acolhedora. Não a princípio. Não quando se é tão moça... Paris, sim; mas a França, o resto, aquela paisagem agreste e fúnebre, vazia. Eu fiquei aterrorizada. A minha casa tão alegre, com aquele sotaque tão nosso, com o calor dos meus compatriotas e irmãos; e me encontrei numa terra onde a rainha era vestida pelas servas e onde vi poucos sorrisos ao longo de todos os anos. Eu morri cedo, mal tinha saído da adolescência; e quando cheguei lá era uma criancinha perdida. Não é por menos que fiz tantas festas! Eu tinha tanto medo, ah, minhas queridas, meus queridos, mesmo quando ganhei uma terra só minha foi naquela terra áspera e fria da França. Eu teria sido uma rainha melhor para o povo se me instalasse em Paris e nas suas luzes coloridas.
Postado por Julia às 16:55 7 comentários
Marcadores: França
quinta-feira, 8 de abril de 2010
L'amour
Postado por Julia às 21:13 5 comentários
Marcadores: Sedna
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Cinco de Novembro ou Bizarre Love Triangle
I see no reason
Why the Gunpowder Treason
Should ever be forgot
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Marcadores: Inglaterra
domingo, 4 de abril de 2010
Um homem sempre perdoa os pecados de outro homem. Mas os pecados de uma mulher... Bem, pense em Eva e o assunto se encerra. Não me importa. Eu penso nos homens que me condenaram: Danton, Robespierre, Marat, Guillotin. Homens de boas intenções. Monsieur Guillotin pensava num modo rápido e indolor de cumprir com a justiça, havia genuína bondade nesse intento e genuína tolice. Os outros três, imagino que tudo que desejavam construir era um mundo onde a fome do povo não alimentasse os diamantes no pescoço de uma rainha decorativa. Homens de boas intenções, cujos assassínios, incoerências, traições e erros não apenas foram perdoados, como foram amigavelmente esquecidos pelos livros de História - obviamente escritos por outros homens, cuja natureza das vontades ou intenções eu desconheço e não despertam meu interesse. Meus devotados homens de boas intenções entraram para a História desse mundo como visionários revolucionários e se agradece a eles pelas infinitas possibilidades que sua revolta popularesca proporcionou ao mundo dos homens. Quando se pode matar a monarquia, o céu é o maldito limite. E entrando para os livros, eles grantiram neles o meu lugar. A morte do rei e da rainha da França, ligeiramente vergonhosas e coisa de que não se deve falar muito nos corredores da Sorbonne, dano colateral da maior, melhor e mais eficiente revolução que o mundo conheceu. Eu, educada na religão católica apostólica romana dos meus pais e dos pais deles, penso nos meus pecados. Pecados nunca esquecidos, nunca perdoados. A rainha dos diamantes, a rainha das festas, a rainha cercada de gente jovem e alegre, a rainha do 'comam brioches'. Pecados de cultura pop, pecados de cinema. Os homens de boas intenções que nunca colocaram nos autos do meu julgamento que a arquiduquesinha da Áustria, apertada nos seus espartilhos, ansiosa por um bom banho e cansada de uma longa viagem, nunca teve uma escolha. Nunca conheceu outra vida. Nunca soube mais do que latim e jardinagem e que aos pobres se deve amar, sorrir, estender as mãos alvas e dar algum pão. Uma rainha deve ser esposa e mãe, foi como me ensinaram e como eu aprendi, a despeito de gostar um bocado de festas. Paris é uma festa! Louis não fazia tipo festivo, mas não se importava que eu fosse jovem e alegre enquanto era tempo de ser jovem e alegre. Tive tão pouco tempo! Obrigada, Louis! Eu amei meu tímido Louis e Louis me amou, porque foi assim que nos ensinaram. Era fácil amar Louis, tímido e servil, talvez um pouco tolo, amante de corridas de cavalos e banquetes suntuosos, criado solitário entre amantes do rei, efeminados e homens de armas, imensamente sedento de amor e atenção. Penso que deva ter sido difícil para ele amar uma arquiduquesa de raízes bárbaras, arredia, a pele ainda ruim de adolescente, um tanto mais alta, vaidosa, voluntariosa, amiga de militares, damas de fama duvidosa, frequentadora de óperas e festas até o amanhecer. Obrigada, Louis, meu pobre rei descoroado e decapitado, obrigada! O rei da França foi perdoado pelo tempo. Teria sido completamente esquecido, se não tivesse sua imagem constantemente associada à minha e eu lhe peço perdão por isso. É estranho pedir perdão por ter sido boa no papel que nasci para desempenhar: Rainha. Fui uma boa rainha numa época em que rainhas estavam fora de moda. Posto isso, teria sido justo ter entrado para seus livros como uma rainha corajosa. Uma rainha fora de época, a rainha que fecharia para sempre a porta das rainhas de sonho, doces confeitados e brioches. Eu fui corajosa. A última e corajosa rainha-consorte de contos de fada numa época de homens, máquinas de fumaça e vapor e revoluções armadas. Meus amados homens de boa vontade e armas. Eu os recebo no círculo do Inferno reservado aos de boa vontade, eles me olham com surpresa, eu beijo suas testas, eles se curvam aos meus pés. Se não havia espaço no mundo para tanta boa vontade, pois haverá no inferno dos que foram emboscados, traídos, decepados. Eles concordam e me reverenciam com suas cabeças deslocadas do corpo. Eu os convido ao meu Petit Trianon. Eles se sentam ao meu redor, pernas cruzadas como meninos e perguntam curiosos sobre Louis. Nunca mais, meus senhores, nunca mais. Talvez lhe faltasse a vontade inflamada que em nós sobra e vaza pelas artérias expostas de nossos pescoços. Deve haver um outro inferno para os reis doces e passívos. Eles concordam. Casualmente, enquanto comem, confessam outros tempos que teriam me amado e me seguido com máquinas que disparam luzes. Sim, eu lhes digo sem uma ponta de amargura, hoje, época farta de brioches e revoluções, eu teria sido amada, tão amada, com tanta devoção e intensidade, que talvez essa necessidade de mim terminaria por me encurralar entre os ferros retorcidos de uma carruagem e o muro de um túnel, a cabeça esmagada, longe do meu rei, perto de traidores e carrascos, as luzes piscando para mim, na noite bela Paris. Paris, Paris, Paris, que é sempre uma festa!
Maria Antonieta da Áustria e da Lorena, trinta e oito anos, viúva do rei da França.
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Marcadores: França
sábado, 3 de abril de 2010
América, Europa e um continente à escolha
O problema dos historiadores, pensa o fantasma da Princesa do Brasil, é que eles gostam exatamente daquilo que eu mais desprezo: o pó! Eu não queria nem sequer o pó daquela terra e aquela terra está cheia de gente querendo o meu pó. Carlota rendeu mesmo muito pó quando morreu; quis ser enterrada com uma coleção de sapatos, fato que a família ocultou por benevolência, e porque já tinham laços com loucos o suficiente; Maria de Bragança e Portugal era, afinal, a sogra de Carlota Joaquina. Que não queria nem o pó do Brasil, nem o de Portugal: menos ainda da França, e tinha Bourbon por duas vezes no sangue! Os historiadores, que são aliás uns fofoqueiros, uns podres, só queriam saber do pó de Carlota, deixem meu pó em paz! Não escavem minha sepultura. Era um tédio ser princesa do Brasil porque o Brasil não era propício para princesas. Era terra de gente gentia, suja, reclamona. Uns infelizes que só queriam saber de problemas sociais. Ninguém queria falar em casamento e tecidos novos. Menos ainda de sapatos. Não que eu fosse fútil assim. Carlota não era fútil, entendia muito dos problemas dos escravos e das infelicidades dos pobres, mas também me achava pobre! Pobre de espírito, veja que Carlota Joaquina, por ser mulher, não tinha voz na corte nem em lugar algum. Ela era um enfeite e se eu não me acostumasse a ser um enfeite o que seria da minha vida? Mas fui muito rebelde; Carlota sem dúvida deu muito trabalho, preocupou muitas cabeças, e mesmo assim saiu com a dela bem coladinha ao pescoço. Se não fosse um enfeite talvez pudesse ver aquela história dos pretos, porque eram mesmo muito tristes aqueles pobres pretos. Carlota Joaquina era uma das poucas soberanas que não eram racistas; mas, pensando bem, eu nem sequer era uma soberana. Princesa do Brasil. Bem certo que fui Rainha de Portugal um pouco, por pouco tempo, e fiz poucas coisas, umas traições, uns trâmites, causei lá alguns problemas; mas Portugal tem o tamanho do meu sapato e a sola do meu pé mede vinte e três centímetros, aliás media, porque Carlota está morta. E o Brasil muito devia a ela, muito devia a mim, porque veja, o Brasil era imenso, ainda é, está maior agora porque tem mais terra, e toda aquela terra devia ter ficado sob o meu comando e teríamos feito maravilhas, mas não me deixaram! Não podia mandar neles e não podia desmandar; no primeiro eu seria fútil, no segundo ela seria insuficiente. Se eu bebia muito era feio, e se não fazia nada eu não era nada também. E eu não podia ser nada, mesmo que o Brasil me tenha negado. Pois eu nego o Brasil também! Desta terra continuo não querendo nem o pó. Nesta terra quero que tudo se exploda e vire tão pó quanto eu! Brasil, Portugal, Espanha, França, todos os lugares que me negaram. Neguem Carlota Joaquina na morte! Eu espero só que a guerra destrua cada centímetro desse amontoado de lixo até ficar do tamanho da sola do meu pé e eu possa pisar nas gerações de reis e rainhas e príncipes e princesas que não me deixaram fazer nada.
Postado por Julia às 15:30 2 comentários
domingo, 28 de março de 2010
A Rainha do País do Verão e de Toda a Bretanha, pt. 3
She's a Killer Queen
Gunpowder, gelatine,
Dynamite with a laser beam
O reinado de Arthur durou trinta anos e depois ele foi dado como desaparecido. Foi pranteado e ganhou um enterro simbólico, com os melhores bardos da Inglaterra e violinos Stradivarius. A música que lhe foi dedicada fora decidida pela rainha, que não tinha qualquer noção de instrumentos ou notas, mas dera ao maestro uma idéia e supervisionara os arranjos. A rainha não derramou uma lágrima e o povo viu - mas o povo ficou ao seu lado. Guinevere desinteressante, Guinevere sem graça, Guinevere pudica. O povo adorava. O povo se enxergava nela. A perdedora que virou uma rainha só por causa de cavalos. Essa era a parte preferida dos contadores da história, porque até aquele momento todos já conheciam, bastava ter um avô vivo para saber. É que a lavadeira da rainha esfregou os lençóis mais vermelhos que o país já havia visto. E Guinevere não tentara esconder o machado. Ninguém sabia de onde ela tirara o machado. Talvez do jardim; talvez tivesse um caso com o jardineiro! Talvez tivesse pedido a Lancelote! Mas Lancelote chorava tanto pela morte do rei e definhara logo em seguida... a verdade que as histórias tentavam sondar era muito simples. Um dia Guinevere achou que já tinha esperado demais. Transformara-se numa violenta supernova. Sua força era tão grande e assassina que a galáxia seria reduzida a pó. Arthur fora dormir jurando à esposa que a Bretanha agora estava em paz e não acordara porque não se pode acordar sem uma cabeça colada ao corpo. O machado era muito pesado para as mãos delicadas e sem calos de Guinevere. A coroa era muito dourada para a cor apagada dos cabelos de Guinevere. Ela era tão doce e insignificante que sequer foi acusada de matar o marido. Afinal, Guinevere o amava. Talvez não como amava Lancelote, porque amar Lancelote era amar a vaidade e a vaidade era ela mesma, e acima de tudo Guinevere amava a si mesma, até que Lancelote definhou pela morte do rei e ela mandou enterrar o corpo de Lancelote no sul da Inglaterra, onde o verão durava seis meses, a milhas e milhas do corpo do rei. Mas Guinevere também amava Arthur e sua gentileza, Arthur e seu amor, Arthur e sua ingenuidade. E a coroa de Arthur. Com o corpo, a espada e a cabeça desaparecidos em alguma vala da Escócia, onde Guinevere seria enterrada dali a quinze anos, a cerimônia em memória do rei mais querido e controverso da Inglaterra - até aquele momento, é claro - terminou com a rainha subindo ao trono vazio e recolhendo a coroa. A coroa dourada, pesada, encrustada, arranhada, ferida, com sangue. A coroa de rei da Rainha. Guinevere ergueu-a aos céus e a trouxe devagar para a própria cabeça, com as próprias mãos, os próprios arranhões, feridas, sangue, a coroa que ela merecera por cada segundo de trinta anos, não pelos cavalos, mas pela força sideral que carregava, mais pesada do que a coroa, mais dourada do que a coroa. Todos a olharam. Guinevere era agora a jóia mais brilhante de todo o mundo. Ninguém questionou a Rainha do País do Verão e de Toda a Bretanha.
Postado por Julia às 14:30 4 comentários
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sábado, 27 de março de 2010
A Rainha do País do Verão e de Toda a Bretanha, pt. 2
You had to choose a side at love and divide yourself in two
The way you were, long before you were walking civil war
Durante toda a viagem Lancelote não podia tirar os olhos de Guinevere, e Guinevere retribuiu os olhares já prediposta à traição. O fenômeno de cada história ser diferente dependendo do contador não era mostrado aqui. Todos davam razão à futura rainha. Ela fora aceita por cavalos! Nem fora olhada no rosto! Talvez o rei nem se dignasse a desvirginá-la. Lancelote ainda não era tão assim amigo do rei, embora Guinevere nem sonhasse que um dia se tornariam como irmãos. Se dependesse dela, chegaria ao rei já maculada. Lancelote não aceitou o pedido mudo. E foram muito castos, de mãos dadas, na carruagem. Ninguém contava essa parte da história sem gargalhadas. A Guinevere já odiava a própria vida, você sabe, dinheiro não traz felicidade, e ser rainha também não. Agora a sua vida seria uma carruagem. De novo os cavalos. Ela queria cuspir-lhes as faces mas, ao descer, encarou aqueles olhos vazios e entendeu, ou achou que entendeu - os contadores faziam caras muito misteriosas, não explicavam a súbita compreensão da rainha. Suprimiu o cuspe na boca e, a mão ainda dada a Lancelote, foi encaminhada ao Grande Rei. Os trinta anos que se passaram podiam muito bem ter sido trinta dias ou trinta séculos, porque o espasmo de tédio que se tornaria a vida de Guinevere estava em franca expansão: uma pequena estrela que ia engolindo planetas pequeninos e meteoros ainda menores. E a gravidade crescia. Não que alguém falasse isso na época, mas ela muitas vezes foi comparada a tufões e ondas gigantes. As histórias divergiam porque cada uma contava uma aventura diferente da nossa rainha. Guinevere fumava, costume dos homens; tinha sempre cinzas nos ombros e o que antes eram sardas cor de chocolate agora eram queimaduras doloridas. Guinevere arranjava casamento para suas damas de companhia e acobertava suas traições. E Guinevere traía o rei. Todos os dias Guinevere traía o rei e traía o juramento ao pai. Ela trairia dez vezes por dia se fosse possível, mas Lancelote falhava em coragem. Lancelote amava tanto Guinevere, e amava tanto o rei... Pela primeira vez Guinevere vinha em primeiro lugar para alguém. Mas o Rei Arthur não se importava. Ele amava mais Lancelote do que amava Guinevere. E amava muito Guinevere. O Rei Arthur enchia Guinevere de jóias e vestidos, e contemplava a Rainha do País do Verão e de Toda a Grã-Bretanha com amor nos olhos e reluz na coroa de ouro. A coroa de ouro não ficaria bem em Guinevere, por isso ele jamais a emprestava, e a Rainha, de jóias reais, só tinha gargantilhas. Guinevere não sabia ler e fingia receber com encanto as cartas amorosas de Lancelote. Uma vez, o Arthur, olhe só como ele era um cara prático, resolveu contar a ela tudo que estava escrito. Ele mesmo escrevera. Guinevere rasgou as cartas ali mesmo, na frente do rei! Imagine só a ousadia! Mas não era a única ousadia. Guinevere mandou o rei trocar a bandeira das tropas por uma cruz. O povo amou mais ainda Guinevere. Uma rainha católica e santa é melhor do que qualquer rei. Mas Guinevere não era católica, não era nada. Era imersa em sentimentos silenciosos e debaixo daquela pele clara e daqueles membros frágeis e daquele corpete apertado e daqueles olhos meio violeta e daquelas manchas amareladas entre os dedos e daqueles pés machucados e aqueles joelhos arranhados havia uma fúria que se debatia como o oceano que afundava civilizações inteiras. A fúria ia e vinha em ondas, e não respondia aos movimentos lunares, mas sim à força gravitacional do tédio-estrela de Guinevere, que a essa altura já tinha a magnitude do nosso Sol, e engolia todo o hidrogênio da ponta da Via Láctea para condensar em hélio. Guinevere gostava de montar no cavalo preferido do rei e fazer sexo com Lancelote na cama do rei, por vezes com o rei. Guinevere fazia isso porque não tinha apenas raiva, tinha ódio. Meros cavalos. Ela nada mais era do que o preço a se pagar por cabeças de cavalos. O ódio esterilizara-lhe o útero, mas ela não lamentava, e os homens sempre se chocavam com essa informação, pois na sua cabeça toda mulher quer ter filhos; as mulheres que ouviam a história jamais se chocavam. Arthur não teria seu herdeiro. Lancelote teria. Quando Lancelote se casou, a pedido de Arthur e Guinevere, que precisavam de um herdeiro ao trono e à coroa-de-ouro-que-Guinevere-não-podia-tocar, casou-se com uma moça escolhida e moldada por Guinevere. A futura mãe do futuro rei. Guinevere mandou fazer a ela um vestido e mandou plantar cravos-de-defunto no jardim, para o dia em que a esposa de Lancelote morresse.Postado por Julia às 18:30 3 comentários
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sexta-feira, 26 de março de 2010
A Rainha do País do Verão e de Toda a Bretanha, pt. 1
An engine, an engine
Chuffing me off like a Jew
A Jew to Dachau, Auschwitz, Belsen
I began to talk like a Jew
I think I may well be a Jew
Postado por Julia às 18:42 2 comentários
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quinta-feira, 25 de março de 2010
Rapunzel
Eu encontrei uma dama nos campos,
Tão linda... uma jovem fada,
Seu cabelo era longo e seus passos tão leves,
E selvagens eram seus olhos.

Sentada nessa cama. Nessa cama enorme. Um exagero de cama. Trancada nesse quarto, no alto dessa torre. Uma torre muito alta. Um espelho muito grande. Tão grande que é difícil circular pelo quarto sem dar de cara com ele e ele sou sempre eu mesma. Eu olho no espelho, eu me vejo lá mais uma vez. Eu não existo de verdade, eu não existo de verdade, eu não existo de verdade. Eu sou uma fábula. Uma história que se conta para ensinar as meninas o quão valorosa é a sua virgindade. Então, o que eu olho no espelho e vejo, não existe de verdade. Eu nem sei o que estou fazendo aqui, posto que não sou rainha. Ah sim. É porque serei, certo que é esse o destino das princesas. Nunca me disseram objetivamente que sou uma princesa. Ouvi dizer que sou filha de um lavrador qualquer. Mas torre, cabelão, espartilho, espera, tédio. Só posso ser uma princesa! Sou tão princesa quanto as outras e serei tão rainha quanto qualquer outra. Serei, tão logo ele chegue e peça pelas minhas tranças. Got it? Pedir as tranças. E eu jogarei as minhas tranças longuíssimas, nunca cortadas, totalmente imaculadas para que ele suba ao meu quarto. Hã-hã? Pois é. Óbvio assim. Eu, sentada nessa cama, trancada nesse quarto, no alto dessa torre, filha de um camponês e um rabanete, sem ser princesa nem ser nada, esperando alguém escalar minhas tranças virgens. Pelo amor de Deus. Me jogar do alto da torre é uma idéia recorrente, se eu não desconfiasse que meu cabelo enroscaria em alguma planta, me deixando viva, ensanguentada e meio careca. É no meio desse pensamento gore que o sujeito finalmente aparece. Alguma coisa no conto diz que eu estaria cantando lindamente e ele viria seguindo o som da minha voz. Não exatamente. Se qualquer transeunte dos arredores da torre me ouvisse cantar, compreenderia porque Frau Gothel me trancou aqui em cima. O príncipe veio foi atrás do meu som alto. A gente ouve um bocado de Black Metal quando está entediada, deprimida e precisa esfregar os azulejos do banheiro. Ele ouviu e, cabeludinho jogador de RPG e fã de metal que deve ser, veio atrás achando que poderia ser, talvez ,uma baladinha open bar. Ele chega. Pede as tranças. Eu já sei o que devo fazer. Todo mundo nasce sabendo. Olho pela janela. Ele tem um cavalo, não é branco, mas é um animal de porte respeitável. Dizem que as mulheres estão sempre interessadas nesse tipo de coisa, não? Eu jogo a trança. Ele sobe pela trança e, através da trança, chega aos meus aposentos para a nobre missão de me resgatar. Não sem antes receber sua nobre recompensa, evidentemente. Porque não basta subir pelos cabelos virgens de uma moça encarcerada numa torre: você tem que foder com ela também. Quem falou que o mundo é justo? Uma garota faz o que tem que fazer. Não tem muita graça enquanto ele está me libertando. Imagino que ele seja inexperiente ou esteja exausto da escalada capilar. Estou olhando para o espelho o tempo todo. Terminadas as formalidades, o rapaz reclama de sede, eu penso que ele deve estar mesmo exausto da escalada. Ofegante e ainda deslumbrando da virgindade perdidada e da roubada, ele bebe a taça de vinho um gole só. Não era uma taça pequena. Exausto e sem costume de beber, o pobrezinho dormiu depressa, sem ter nem tempo de vestir as ceroulas. Definitivamente terminadas as formalidades, eu abro a porta. Obviamente meu quarto tem porta, uma porta de madeira pesada e nobre. Uma bela porta. Destrancada. Bem como essa torre aqui também tem uma escada e uma outra porta lá embaixo. É estúpido pensar que não e que eu estaria trancada aqui. É uma idéia bem estúpida. Não sei da onde tiram essas idéias. Pois bem, eu abro a porta e me vejo mergulhada em liberdade. O cavalo está lá, esperando por ordens. Percebo que o príncipe deixou sua coroa pendurada no pito da sela, como se aquilo fosse uma moto e ele tivesse parado num posto de gasolina para comprar uma cerveja. Que tipo de idiota faria isso? Coloco a coroa e me torno uma rainha conquistadora. Uma rainha de golpe de estado, de ocupação pacífica, de guerra fria. Uma verdadeira rainha, por direito coroada. Monto no cavalo de pernas abertas, como um homem, e cavalgo em direção ao destino das rainhas. Quanto tempo agora? Quanto tempo até eu perder minha cabeça?

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quarta-feira, 24 de março de 2010
It was a murder, but not a crime
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terça-feira, 23 de março de 2010
Romanova
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Marcadores: Rússia
domingo, 21 de março de 2010
Vida Seca
Postado por Julia às 14:50 9 comentários
Marcadores: origem indefinida
sábado, 20 de março de 2010
A Farsa de Inês de Castro
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sexta-feira, 19 de março de 2010
Francisca
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quinta-feira, 18 de março de 2010
Confecção de Coroas
Postado por Julia às 00:02 8 comentários
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quarta-feira, 17 de março de 2010
Palácio da Justiça
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terça-feira, 16 de março de 2010
Chapel Royal of St. Peter ad Vincula
Senhora,
Eu não perdi a cabeça por Henrique. Eu perdi minha cabeça por aquilo tudo. Foi uma época meio maluca, não foi? Eu fico pensando, pensando... Eu sento, coloco a cabeça no colo, aliso meus cabelos e tento mentalmente recosturar os fios da trama que me trouxeram até a A Torre. Algumas coisas eu não consigo me lembrar, penso que seja um efeito colateral de quando cortam a sua cabeça fora com uma espada. Não doeu nada, se a senhora tem esse tipo de curiosidade. Imagino que a doença que comeu seu útero por dentro tenha sido mais dolorosa. Tantas coisas são dolorosas nessa vida. Eu me lembro de estar em um baile. Eu era aia de uma rainha firme, bonita, muito amada. Os olhos o rei passeavam pelo salão, mas isso não tirava a dignidade de pedra da minha senhora, vestida de vermelho escuro. Lembro-me de passear pela corte em festa sem ser realmente vista. Os homens conspiravam contra o rei sem herdeiro e eu me perguntava porque uma menininha não poderia ser educada para ser rainha. Eram pensamentos vagos, eu não era vista, não via as coisas direito. Já viveu no limbo, senhora Catarina? Não é agradável. É escuro e viscoso. Eu odiava. Ser era uma sombra entre a senhora e minha irmã. A sombra sobre a minha vida era imensa. No fundo, eu não fazia parte de nada. Não haviam grandes planos para mim. Eu só ouvia a música, movia o corpo devagar, num canto perto de uma grande tapeçaria. E era lá que acontecia a única coisa que me garantia que eu estava vida e era humana e que eu tinha uma chance: eu desejava. Eu confesso sem culpa, Senhora Catarina, que Henrique e suas formas redondas, seu odor pouco agradável e suas maneiras grosseiras não me despertavam grande desejo. Era você, Senhora, era sua coroa, suas jóias de pedras enormes que nunca curvavam seu pescoço, seu andar altivo, seus olhar de mulher católica, suas mãos brancas de santa. Ah, eu desejava com meu corpo, minha lascívia, meu ódio e minha alma. Eu desejava ser vista, ser amada e ser rainha e não bastava ser qualquer rainha, tinha que ser você, Senhora. Bem... depois disso as coisas aconteceram como aconteceram. Quando aquele câncer te levou, eu desfilei toda vestida de Sol pela corte. Eu quis ser vista. Eu fui vista. Pode imaginar? Eu fui realmente vista. Nem quatro herdeiros homens nascidos de um mesmo parto, como se eu fosse uma gata, me fariam ter sido tão vista como eu fui no dia da sua morte. Eles me viam. Eles me odiaram. Henrique olhou para mim tanto e com tamanho ódio que me faz compreender e concordam em parte sua bela metáfora do lago gelado. Aqueles olhos azuis! Congelados! Eu era o Sol naquele dia. Eu era o próprio deus Sol e ele me congelou com um único olhar. Eu soube que estava morta naquele segundo. Não foi o carrasco francês, não foi a Torre de Londres, não foi a luxúria de Henrique, nem a necessidade de um herdeiro. Foi aquele dia, efoi meu vestido feito de luz de Sol, no meio da corte que silenciava o luto da rainha mais amada que jamais houvera. Eu fui rainha-consorte por mil dias. E sabe, Senhora, eu amei aquela coroa cada segundo desses mil dias. Eu a honrei com meu coração. Eu não me abaixei para nenhum carrasco, como a Senhora não se curvou para nenhum de nós. Eu a honrei, honrei seu marido e honrei sua coroa! Não sei se a Senhora concorda, mas penso que ser rainha é uma bela porcaria. O que me lembra que minha menina virou rainha! Uma rainha ruiva, protestante e sem consorte, pode imaginar como e com que intensidade a minha menina foi vista? Mil vestidos amarelos! É que Isabel tinha o sangue ruim do pai, sempre teve. E acabou que eu perdi a cabeça pela coroa que não era minha, mas que eu queria tanto! Ah, Senhora! Era pesada demais, era pesada demais...

Anna,
Aia de Catarina de Aragão, Marquesa de Pembroke, Rainha Consorte da Inglaterra, Assombração da Torre de Londres.
Postado por Mayra às 12:48 6 comentários
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segunda-feira, 15 de março de 2010
Peterborought
Anne,
Henrique. Henrique é um lago gelado e num dia quente. A gente sente calor e tem vontade de mergulhar. Henrique convida a gente pra mergulhar. Mergulhar dentro dele de tranças soltas, só em pele e anágua. Henrique me quis. Imediatamente. Furiosamente. Henrique, quando convida a gente para mergulhar, parece que quer afogar a gente. Eu deveria ter sabido. Acho que eu soube, Ana. Eu mergulhei em Henrique e a água fria me deu espasmos musculares, alfinetas, dolorosas, meu coração queria parar de bater, meus pulmões queriam partir em milhares de pedaços. Eu soube, Ana. Mergulhar em Henrique era ruim, mas eu queria que fosse bom e - posto que eu era rainha e dona da vontade do mundo - era bom. Henrique era um lago gelado, Ana, e um dia congelou. Pode-se dizer que foi meu ventre avesso ao gene Y, pode-se dizer que eu já não era mais tão bonita, pode-se dizer que foi por sua causa... mas Ana, Henrique é um lago gelado e tudo que se pode esperar de um lago gelado é que ele congele quando o tempo muda. E o tempo muda, Ana. O que aconteceu foi que as estações passaram, mudaram e o inverno chegou para Henrique e, sendo eu um membro costurado ao corpo de Henrique, o inverno chegou pra mim também. Eu sempre fui bonita, Ana, mesmo congelada. Eu morri congelada amando Henrique, Ana. Amando em espanhol, latim, francês e inglês fluentes. Ninguém ama como os espanhóis, ninguém ama como se ama em espanhol. Ah, Ana, você não sabe! O sangue quente na água gelada! A verdade é que vocês me parecem todos lagos gelados, com seus milhares de pedacinhos brancos, afiados, boiando. Tão bonito! Ana, eu acho que você também é um lago muito frio. É uma ilha estranha essa de vocês. Eu sinto muito por você, Ana. Mas, me perdoe o comentário, depois de todos esses anos, me reservo o direito de achar uma certa graça. Meu túmulo em Peterborought está sempre florido e, lá dentro, Ana, tem uma cabeça grudada no meu corpo. Perdão. Não posso deixar de rir.

Catarina,
Infanta de Aragão, Rainha Consorte da Grã-Bretanha, e Princesa de Gales.
Postado por Mayra às 23:07 6 comentários
Marcadores: Inglaterra
domingo, 14 de março de 2010
Festa a Fantasia
Postado por Julia às 21:59 5 comentários
Marcadores: origem indefinida




















